Avançar para o conteúdo principal

Europe by Train: o Intruso



Viagem Bruxelas-Colónia. Tudo calado, sem conversadores. Era cedo e caía aquela chuva fria que gosta de Dezembro e Janeiro; uma espécie de gelo desempregado a que gosto de chamar Chuneve.
Atrás de mim, um tipo de gorro ressonava alegremente; vinte anos, uma barba clara. Tinha o ar de quem tinha dormido pouco naqueles dias.
Não dei por ele até meio da viagem, quando se chega a Liège. O revisor passou uns minutos antes da paragem. Então ouvi-o sair do banco atrás de mim, e a tentar ir para a casa de banho, ocupada.
O revisor veio, um alemão de cinquenta anos e eficácia bonacheirona de óculos na ponta do nariz.  “Os bilhetes”. E deve estar habituado a esta gente, porque ia observando o tipo de gorro a tentar ir para a casa de banho, ou adiante, ou o que fosse.
Encontraram-se no corredor. Com a maior calma, pediu-lhe o bilhete em Alemão, Francês e Inglês. O gorro começou a protestar num inglês com francesismos, organizado desta maneira:
- verbos de acção: em Inglês.
- prosódia: eslávica indeterminada.
- adjectivos: terminações em Inglês ou em Francês.
- palavrões: em Francês (variações à volta de “putain”).

O revisor pediu outra vez o bilhete. O gorro continuou a algarviar.
Então de dedo em riste, e com a cara eficazmente a pressionar-se contra a do gorro,  o revisor disse:
- Páre imediatamente. Vai calar-se e sair na próxima estação. Se não o fizer, chamo a Polícia.

Não se deu mais por ele.
Simpatia e eficácia alemã. Em Portugal fariam tudo ao contrário: medo, falsa autoridade, muita conversa, e resultados nulos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…