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Diálogos Pintados, I: Le Duo

"Le Duo", Gonzalez Coques, Musée Old Masters, Bruxelles
[Começo uma rubrica, a partir de fragmentos que anoto nas minhas idas a museus; são diálogos com a história que se comunica comigo a partir dos quadros]

Quando tem saudades da Andaluzia de onde escorregou à pressa do ventre materno, ele berra para a mulher da porta dos fundos da casa, roufenho e rispido, enquanto atira o casaco a cheirar a fumo e a suor, e a vai buscar de um gesto. Dedilha-a logo, um baú de madeira com um tesouro de cordas. É sempre porque uma melodia do passado o chama.
Ele não sabe se é alguma coisa que o seu cérebro infantil guardou, roubado tão cedo à mãe que o viu nascer tão depressa para ainda mais vorazmente morrer; ou quaquer memória que tem de uma Espanha de que não sabe nada, só o nome por que é conhecido. Oficial sem ofício na administração castelhana da Flandres, vive assim entre dois  mundos. Nem pela mulher verdadeiramente se interessa, casamento com uma vaga luxúria mas sobretudo com o dinheiro e o estilo madrileno dela. "Pero Juan, esto no és espanol", disse uma vez e calou-se, estranhando a melodia que ele a forçava a seguir. Ela canta, um lamento como a Espanha perdida dele, memória nela. Ela canta e obedece, como o papagaio e o cão à sua direita perguntam.

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