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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2015

Diálogos Pintados, I: Le Duo

[Começo uma rubrica, a partir de fragmentos que anoto nas minhas idas a museus; são diálogos com a história que se comunica comigo a partir dos quadros]
Quando tem saudades da Andaluzia de onde escorregou à pressa do ventre materno, ele berra para a mulher da porta dos fundos da casa, roufenho e rispido, enquanto atira o casaco a cheirar a fumo e a suor, e a vai buscar de um gesto. Dedilha-a logo, um baú de madeira com um tesouro de cordas. É sempre porque uma melodia do passado o chama. Ele não sabe se é alguma coisa que o seu cérebro infantil guardou, roubado tão cedo à mãe que o viu nascer tão depressa para ainda mais vorazmente morrer; ou quaquer memória que tem de uma Espanha de que não sabe nada, só o nome por que é conhecido. Oficial sem ofício na administração castelhana da Flandres, vive assim entre dois  mundos. Nem pela mulher verdadeiramente se interessa, casamento com uma vaga luxúria mas sobretudo com o dinheiro e o estilo madrileno dela. "Pero Juan, esto no és es…

ghost passed

Reparei nela do outro lado da rotunda. O olhar azúleo, o batôn nos lábios talvez um pouco mais. Atravessámos as cinco ruas que nos separavam, e ficámos frente a frente, cada um do seu lado da rua. Os olhos dela pareciam agarrar-se aos meus, com uma pergunta. Atravessei a rua, sorri, ficámos frente a frente. Sorri, porque havia qualquer bruma nos seus olhos que eu não queria. Dois desconhecidos, quarenta anos de diferença, numa rotunda tão larga, círculo e estrela, como se o tempo se encontrasse.
A custo, perguntou-me.
- David?
Sorri.
- Não, minha senhora. Não me chamo David.
- Vous êtes sûr?
- Sim.
As nuvens nos olhos, a mão direita a mover-se, entre tocar-me no braço e apagar o tempo que se cruzava, vertigem, entre nós.
- Um bom dia para si, menina - decidi eu. A história seria longa, e para mim era tarde demais, para ela sem dúvida também.
Olhei para trás uma vez. Só vi o azul dos olhos, triste, como se tivesse visto alguém de tão impossível voltar.

Europe by Train: o Intruso

Problemas medievais

Algumas coisas inacreditáveis ditas & proferidas nos últimos tempos, reagindo à acção do novo governo grego.

1. Subir o salário mínimo?!?!
Pois isto está mal, claro. Já gastar três vezes mais a salvar bancos está bem.
Dar de comer a pessoas, já sem falar em pôr dinheiro na economia real, está errado, claro. Empobrecer pessoas para instilar dinheiro em bancos que já não têm ligação com a economia real, isso está certo.

2. A dívida
Não entendo porque uma dívida vale mais do que outra. A dívida antiga e ferida da ocupação de um país, da sua destruição, da morte de pessoas, vale menos do que uma dívida recente feita a um país destruído.
A Grã-Bretanha perdoou as dívidas de guerra à Alemanha, nos anos 50: à Alemanha que quase a destruiu na II Guerra. Em nome da paz e do desenvolvimento.

3. Governo e Estado
É isto que está em causa: ou os Estados são a coligação de um povo, unido na manutenção dos seus interesses colectivos; ou são apenas cobradores de impostos da banca. É isto que ago…

O Último Sorriso, 1/2

[Partilho um conto publicado anteriormente em Museu de História Sobrenatural, 2007).

O ÚLTIMO SORRISO

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XV

uma dor na água semeou-se em mim. nasce na alma mais real que o real, estaciona-se no meu corpo, tem braços e queixas e ramos de sono. e cresce, cresce sobretudo quando não se vê, quando corre um pouco mais para o que morre. aí mergulha dentro de mim mesmo, expande-se, e aquilo que se via de frente na água fica exactamente antes do céu .

Europe by train: o mistério da gentrificação