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Ser ou não ser Charlie

O último cartoon de Charb
O 11 de Setembro europeu, dizia a editorialista do "Le Soir" Béatrice Delvaux; "mais uma execução do que um atentado terrorista", dizia-me uma amiga: certo é que depois do atentado ao "Charlie Hebdo" nunca mais seremos os mesmos. Uma execução terrorista a um jornal, feita por dois homens educados e crescidos em França - isto é um atentado à raiz da Europa do pós-guerra. E se o somarmos ao atentado no supermercado "Kosher", é também um ataque à Europa que se reergueu da 2a guerra mundial, ao atacar judeus, e ao estilo de vida ocidental que permite a diversidade cultural.
Nós, europeus, conhecemos bem o que é e o que significa um ataque político a um jornal. Sabemos o que é a censura política à imprensa, tão eficaz na Europa pós-Napoleão do "Congresso de Viena", apenas para citar um exemplo. E os franceses sabem-no mais, porque se há terra onde a liberdade de expressão custou sangue foi em França. Ainda há dias, relendo o extraordinário A Construção de Luís XIV, de Peter Brooke (muito bem editado em Portugal pela Caleidoscópio) relembrava como o Rei-Sol baseou a centralização do poder real na reprodução da sua imagem, não só em estátuas e imagens, mas também através de vários cronistas; e pensava como a sátira e a caricatura, tão fortes em França, foram tão certamente alimentadas pela necessidade de contrariar o poder através da sua mesma arma: a representação. 
Posto isto, devo confessar-me em choque pelas alarvidades escritas que vi em duas opiniões públicas, a americana (o que esperar, meu Deus, dos republicanos fanáticos, senão que Deus seja grande para os perdoar); e a portuguesa, valhanosDeus. E assim partilho algumas notas da minha própria dúvida, do meu próprio espanto.

1. Uma Democracia é feita de pluralidade. De opiniões, de expressões, de religiões e de povos. 
Portugal, país atlântico de cultura mas aldeão de comportamento, tem dificuldade em aceitar críticas à religião. Lembro-me bem do choque que foi o Cartoon de António no Expresso com o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz (história relembrada aqui)- quando a política da Igreja Católica quanto ao preservativo custa, todos os anos, milhares e milhares de infectados com doenças sexualmente transmissíveis. E isto foi em 1993, ainda só há 22 anos - e os mortos continuam, e João Paulo II é santo. Estranhas leis as da religião.
Uma Democracia é feita de discutir isto; não no Parlamento, como foi o caso deste cartoon há 22 anos, mas de o discutir através de todos os meios: entre família e amigos, no ensino, em filmes, em livros, em cartoons. Em Portugal isto nem se consegue, porque é impossível pronunciar mais do que 10 palavras seguidas numa afirmação sem se ser cortado.

2. O "Charlie Hebdo" não era um jornal anti-islâmico, nem anti-religião. Muito mais político do que outra coisa.
Na sua última capa, aliás, o "Charlie Hebdo" caricaturava na capa precisamente Michel Houellebecq, com posições anti-islâmicas, e que precisamente acaba de editar um romance, Soumisson, em que representa uma França islamizada (dizem, ainda não o li). 
Por isso, choco-me com as leituras do "respeitinho é bonito" ou "puseram-se a jeito". Mas que país paroquial é este? Ou com as leituras da América Bible Belt que acham que o mal é a aceitação europeia de tanta imigração muçulmana.
Qualquer cultura que não permita discussão está morta. E começar a discussão está muitas vezes em quebrar a representação. É com isto que uma mensagem passa e se cola, tornando-se uma imagem, e depois um símbolo. O que o "Charlie Hebdo" fazia não era serviço público, era serviço civilizacional.
Ainda: espero que em breve sejam feitas edições das caricaturas de Charbo, para tirarmos tudo a limpo (mas, para já, aqui uma amostra). As caricaturas não são anti-religião, são anti-fanatismo, são contra a representação de um Islão fanático ao ponto de atacar o Ocidente. Isto é resistência, isto é coragem.

3.   "Confesso-me um pouco admirado com a quantidade de Charlies que há neste país e que eu desconhecia", escreveu brilhantemente João Quadros.
Espanto-me como ainda ninguém percebeu que o processo de formação de uma opinião pública em Portugal é igual ao da Inquisição. "Diz-se que ela é feiticeira", vem a guarda, interrogada, mais duas denúncias pias, e braseiro com a moça. Gritam-se argumentos sem se analisar com os argumentos. Mas está tudo pronto para ter pena das vítimas, depois de arrumadas.
Não, não somos todos Charlie em Portugal (veja-se como ainda é difícil satirizar ficcionalmente Portugal pós-25 de Abril). Não, não somos todos Charlie. Em Portugal toda a gente acha que sátira é louça das Caldas - e depois disso já se partiu a louça.

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