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Europe by Train: as regras são feitas para nem todos as cumprirem



As minhas adoradas viagens de comboio Berlim-Bruxelas (e vice-versa) foram todas durante a semana. Por isso nunca esperei a feira de confusões que me esperava naquele Sábado às 7 da manhã.
Eu era Atlas, com o peso de duas noites mal dormidas e o coração partido de deixar Berlim; e duas malas tremendas que fariam a Linda de Suza compôr uma sinfonia de cartão.
Esperava que o meu bilhete reservado para a zona silenciosa (“Ruhebereich”) me desse uma hora de sono embalado pela ternura do ventre comboierno. Depois de ter de esperar um bom par de minutos pela quantidade de gente a procurar o lugar, a sentar-se no sítio errado, sem ter reserva (no que parecia ser uma viagem de grupo de várias famílias búlgaras), finalmente ocupo o meu lugar e sou todo pestanas. Por pouco tempo: eram 7h50 mas um grupo de três amigos alemães continuava a noitada e tomava um pequeno-almoço líquido germânico: as “Becks” saíam de um pack de seis (um para cada), misturada com vozes roucas e desdentadas e gargalhadas de júbilo. Então e o “Ruhebereich”? À terceira gargalhada, ao passar para ir ao café, passei por eles e disse com o meu manco mas mais calmo Alemão:
- Lamento, mas isto é uma carruagem de silêncio – disse, apontando para o sinal.
- Das ist nicht meeeeer  (já não é maaaaais). E a conversa ficou por aí, sem que ninguém dos restantes utilizadores do comboio, eles verdadeiramente germânicos e respeitadores, se desse ao luxo de os calar.
Nunca tinha visto nada assim na Alemanha: o respeito pela lei é geral. Bom, estes devem ter ficado na parte bárbara dos bárbaros.
O que nunca pensei é que a estes foliões roufenhos se juntasse uma troupe inesperada a partir de Hannover. Cinco moças rapidamente sessentonas ocuparam cadeiras e mesas com cestos de verga. Responderam aos foliões com veias de taberneira. E logo abriram as sacas para espalhar queijo, uvas, garrafas de sekt, e uma boa disposição de quem sabe que se apanha os homens pelo copo.
E de repente Cesário Verde reina num comboio no meio da Alemanha: um piquenique de burguesas e de beberrões, onde o ramalhete rubro de papoilas é este Alemão de biergarten; não, um ramalhete líquido de papoilas.
Não combati mais a evidência, e impedido de sono, preferi pôr-me a descrevê-los, todos eles viagens dentro de um país que esconde tanto dentro da sua ordem.

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