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Crôuvicas de Bruxelas: Julien Green



Quando ele morreu, quase um século de sangue e invenção, eu começava a ser eu. Uma breve notícia no jornal, tinha morrido o franco-americano Julien/ Julian Green, romancista psicológico, católico e homossexual. Muitas coisas vieram a ser ditas depois, não tanto em Portugal, mas todas me levaram aos seus livros. A Ulisseia, a poder não sei de quem (mas muitas loas à sua alma), tinha publicado nos anos 60-70 dois dos seus mais afamados romances, Moira e Cada Homem na Sua Noite. Se no primeiro me encontrei onde não esperava, no segundo me estranhei em todas as direcções. Uma sintaxe de escada, que caía tão dentro da personagem que esta acabava e se tornava eu. Soube depois que a psicanalista e teórica americana Melanie Klein, depois deste livro, sistematizou uma importante investigação sua.
Filho de americanos vivendo em Paris, cresceu e viveu em França, com excepção dos quatro anos de formação em que viveu na Universidade da Virgínia, terminava em estrondo a primeira guerra. Desse tempo temos o primeiro volume (cronológico, não de publicação) do seu Diário, On est si sérieux quand on a 19 ans (É-se tão sério quando se tem dezanove anos). A ironia é apenas um sorriso leve para uma viagem de que não se regressa inteiro, entre a análise sociológica dos americanos, a densidade espiritual, e a luta interior de um rapaz de dezanove anos ao perceber que o amor, o prazer e a fé pareciam jogar em direcções contrárias.

"Meu Deus, ajudai-me a submeter ao império da minha razão este amor desordenado da beleza carnal; permiti que eu admire a espantosa beleza da Vossa obra sem que a imaginação, que eu tenho poderosa e desenfreada, se liberte e suscite a perversão da minha natureza" (pg 35).

Ou ainda estes breves excertos de uma viagem tão anunciadora da profundidade e extensão a que Green desceria na sua escrita:

"A única forma proveitosa de ler a História, é senão a de nela ver uma representação do Eu em todas as suas faces, de se ver a si mesmo em potência. Estudada assim, torna-se uma espécie de biografia possível daquele que dela se aproxima" (pg. 40).

Mas o Diário de Green, tarefa que se estende por mais de setenta anos de escrita, começou para mim no penúltimo volume, quando ele pressentia a morte, On Avant par-dessus les tombes (Tendo por debaixo os Túmulos). Comprei-o na minha primeira ida a Paris, juntamente com uma versão do Requiem de Mozart por Sir Neville Marriner: e assombrei-me então como ambas as obras, dirigidas por homens avançados em anos, pareciam paradoxais: novas na sua sabedoria.
Veio depois um dos seus livros de memórias, Souvenirs des Jours Heureux, onde não esqueço isto:

«Qualquer coisa de inesquecível esconde-se nesta acalmia que precede os primeiros compassos de uma grande música, uma espécie de espera ansiosa à qual não pode responder senão a voz da orquestra. Era delicioso e ao mesmo tempo insuportável esperar e esperar no negro, esperar por vezes dez ou quinze
segundos, depois sentir-se libertado pelo ru­gir magnífico de Beethoven. O coração a bater, escutávamos numerosas obras de uma beleza encantadora. Com que acui­dade sentíamos que o nosso entusiasmo permitia a esta beleza tornar-se parte de nós mesmos. Mas era inútil tentar exprimir este sentimento; estava estupefacto e silencioso. Muitas vezes desejei poder ouvir [a Sinfonia] «Heróica» uma vez mais pela primeira vez, porque agora o tempo passou para que eu possa simultaneamente escutá-la e compreendê-la: com isto não quero dizer que fiquei surdo, mas que esta sinfonia tornou-se-me tão familiar para que eu a possa escutar com uma impassível admiração. (…)

Há uma loucura de razões para amar a música aos vinte e cinco anos; por uma química singular da minha sensibilidade, a música concede-me uma confiança absoluta em mim. Raros são os homens de ambição que podem ouvir grande música sem se sentirem animados por um imenso desejo de grande­za. Alguns acordes transportam-nos para um mundo sobre-humano onde tudo parece estar ao nosso alcance com amor, felicidade, glória. Sentado na minha cadeira, ouvir Schubert ou Scriabin fazia-me sonhar com estranhos ou soberbos livros que saíam do meu cérebro, frases como ninguém leu; sentia-me como o drogado bêbado de haxixe numa orgia de ilusões celestes; mas o meu sonho era um sonho acordado, eu juntava mentalmente as primeiras palavras de um novo livro, as frases de um diálogo atravessavam-me o espírito.»
Julien Green, Souvenirs des Jours Heureux, Paris, Flammarion, 2007, pp. 270-271

Quando eu duvidava que pudesse achar em Bruxelas (um)a casa, encontro (entre outros livros-escada) o primeiro e o último Diário de Green no meu alfarrabista preferido. E entendo, livro na mão como um espelho que me corta os olhos, que as perguntas e as respostas que constroem estariam naquele livro, aliado e mestre. Parecerá banal, mas é uma verdade encantada e lacrimosa: com o Journal de Green eu não me sinto sozinho, mas questionado e compreendido.
Ao seu Diário regresso sempre, com uma espécie muito clara de sede por esta escada de Jacob que me liga das raízes de mim ao terreno mais fértil do céu.

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