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Mensagens

A mostrar mensagens de 2015

Feliz Natal 2015

Entre o tempo destruído e o tempo por chegar, nasce inesperadamente a luz. Que assim seja em 2016.

Diálogos Pintados, XI: Pietro Longhi, A fortune teller at Venice

Qual das três realidades é a real?
A vidente que lê a mão à beldade coberta, misteriosa na expressão e nos meios, vivendo desse mistério?
A outra mulher, coberta, mascarada, meio pássaro meio Carnaval?
Ou o rapaz que traz laranjas, a realidade da natureza e da pobreza?
A mesa com uma cadeira sobre e uma flauta verde, repete e prolonga esta pergunta.
E que lugar é este, palácio vazio, colunas antigas de nada? O lugar estranha a cena, ecoa o jogo.
A vidente, que dá nome ao quadro e que está no meio da cena, aquela que parece ser o mistério, é a única clara. A beldade coberta esconde-se: o jogo está no que se diz não dizendo, como um enigma como resposta.

o inverno do meu renascimento

São oito da manhã de terça-feira, dia 8 de Dezembro. Os pássaros do Parc Léopold estão um pouco mais calmos hoje. Vejo o Parlamento Europeu ao fundo. Lama por todo o lado. Faz um frio que é frio mas não é frio, e tenho saudades de Berlim.
De repente os meus passeios no Lietsensee, coberto de neve, os passos a medirem-se. O lago gelado, e apenas dois ruídos: o dos corvos, únicos pássaros no mundo a cortar o gelo com a sua voz negra, e o dos meus passos na neve. O silêncio branco, fundo, absoluto da neve, por baixo, por cima, por dentro de todas estas coisas.
A memória de uma cidade imensa e inúmera como um leão de infindáveis cabeças, tornada um gato manso não ao sol mas à luz crua do gelo. De ruas e ruas, de Postamer Platz até casa, só neve, silêncio e mundo interior.
Recordo esse inverno de há dois anos, onde eu fui um só com a solidão, o frio, os meus fantasmas, e um romance que tomou conta de cada segundo do meu dia. Escrevi-o com neve, com gelo, com olhos novos cortados pelo frio…

ouro, incenso e mirra

É como uma caixa de chocolates, vinda exoticamente do estrangeiro, oferecida por alguém em viagem. Tenho memórias claras ainda daquele tempo em que se faziam pedidos a quem ia a Paris e Londres, porque havia tão pouca coisa em Portugal. E o tempo da espera, a raridade, a expectativa, tudo isso fazia desse estrangeiro mais entranhadamente desejado ainda. Lembro-me da sensação de sci-fi de quando o meu irmão foi a Londres nos seus 18 anos (1985!) e trouxe um walkman que fez o meu espanto total.

Pois esta caixa de chocolates foi laboriosamente feita por artesãos que conhecem não apenas bem do seu ofício, mas têm a paciência de comparar, provar, escolher o melhor chocolate. Trata-se da inigualável e extraordinária colecção "La Discothèque Idéale de Diapason".
A revista francesa de música clássica não apenas continua a resistir - e em glória - ao fim do CD, como tem desenvolvido uma estratégia muito bem pensada: a de fazer pequenas e baratas colecções de CDs, utilizando os seus i…

100 Sem Nunca: Rachmaninov e Prokofiev por Byron Janis

Este é o disco para quem atravessa uma crise de identidade: deixa, cortadas, veias velhas, as paisagens do seu Romantismo, como uma coisa antiga e limitante, uma doença de olhos que passasse para a alma. Para se aproximar da revolta criadora, da descoberta da liberdade interior, do corte consigo como mecanismo de auto-conhecimento.
De Rach1 a Prokofiev3, Janis e Kondrashin rebentam a história da música e os seus baluartes e definidores: é uma viagem pelos ouvidos que desconstrói programações mentais, restabelece fluxos criativos, cria ligações entre desejo e fome de absoluto.
Este disco representa também um momento histórico, como já referi aqui. Para mim, não é apenas uma audição: é uma operação, uma oração cortante entre presente e futuro. Salto nas suas ondas asas de esfinge para o futuro de mim; e ligando a felicidade ao cumprir-me, saio limpo, cósmico.

Diálogos Pintados, XI: Morini: Il Cavalieri dal Piedi Ferito

Se fosse no século XXI, diríamos decerto que era um retrato de quem quer entrar para a política. Do pé ferido que titula o quadro não vemos nada ("Knight with his Jousting Helmet" - "il cavalieri dal piedi ferito"): está transformado na glória das armas pisadas, iguais ao chão. Ainda o colete de malha forjado, ainda o elmo, postos ao lado como um meio. Porque nos olha a partir do fim: a partir da glória alcançada, lutada.
O sorriso contra os muros desfeitos, porém, parece contar outra história: a de como a sua direcção poderá resgatar glórias perdidas, reerguer ruínas, decepar plantas rasteiras.
A espada não o deixa, traçando uma linha do chão ao elmo, da armadura deixada até ao coração: implacável, vencedor. O que escorre dos muros, água metálica, pergunta porém o que dizem os olhos. Se não se trata apenas de uma encena-acção.
Um pouco adiante, o quadro do Pai, o mais antigo exemplo de um retrato de corpo inteiro que sobreviveu. Ambos contam uma sagrada narrativa…

Sobre a fauna dos museus

Uma chinesa aos berros ao telemóvel, e na outra mão uma câmara de filmar, registando tudo; passa agora para a máquina fotográfica. Voz e imagem, sem cérebro.
Um grupo de adolescentes tira selfies contra os quadros. Passa um rapaz moreno, talvez italiano, querem uma fotografia com ele, junto àquele "horrible painting". Outra fotografa "Os Embaixadores" de Holbein, pondo sobre o meio do quadro uma figura de Manga.
Um casal de brasileiros discute o preço das molduras, e como o chão da National Gallery deve ser limpo. Papai diz mesmo que isto deve ser madeira roubada do Brasil. "Isto é Inglaterra, não é Portugau". Uns tiravam aos outros, remata sorrindo.
Um rapaz não larga o seu whatsupp, e o seu Facebook diz sala após sala que ele aqui está. O mundo fica descansado e feliz. Canaletto e a sua vista do canal parecem mais transparentes e rasgadamente azuis com tão profunda informação.
Duas crianças rebolam-se no chão. Uma delas finge que liga para um amigo ima…

eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém

Bruxelas, 21-23 de Novembro. Cercado dentro da cidade. Sem saber quando o cerco deixa de ser. Não há ninguém a rodear a cidade; nenhum exército, nenhuma invasão.
O cerco não é exterior. Isso é tudo o que o cerco não é.
O cerco é por dentro. Uma ameaça dentro das avenidas, dos transportes, das ruas. Uma esquina transforma um ruído numa dúvida.
O cerco é nos olhos: porque de repente o outro pode ser inesperadamente "o outro", e todas as formas de olhar ficam também elas cercadas. Limitadas.
O cerco é interior, porque ao futuro largo, a inventar, se passa para o presente estreito, a sobreviver.

Uma ameaça que quer destruir por dentro. Fragmentar o dia, os actos, e depois nós mesmos.
Estamos cercados por dentro. Desce-se a rua, pensando a qualquer momento num tiro de ódio sem destino. Porquê, bato a porta, bato os pés no chão? Porquê, ecoa a cidade deserta? Eu faço parte do mundo que não quer fechar ninguém. Eu faço parte deste país que recebe todos com generosidade e sem acepç…

A Direita anda torta

Mesmo que Cavaco Silva continue a prolongar os seus poderes de Plastic Man, adiando a posse do governo que ele considerava urgente, deverá haver governo esta semana. E por isso, para terminar esta longa telenovela de dois meses, algumas notas para fixar comportamentos.

1. A Direita portuguesa deixou o centro-direita
Não teriam bastado já os quase 5 anos de governo PSD + PP, mais troikista que a troika, para o provar? A retórica de alguns ministros durante a campanha e neste interlúdio mostraram muito mais. Passos Coelho orante, a Ministra da Agricultura que segue modelos divinos, o Ministro da Admistração Interna que nos fala dos tempos de Deus. Tudo tão ajustadamente Antigo Testamento que vale a pena perguntar se não é do primeiro Governo de D. Maria I que estamos a falar.
Porém, a reacção ao acordo de esquerda revelou muito mais.

A Direita age perante a liberdade do acordo à esquerda com muita estranheza. Parece que a Direita pensa que a Democracia acontece a cada quatro…

Europe by Train: was ist das?

Diálogos Pintados, X: Arthur Streeton, "Blue Pacific", para quadro e memória

Reparei nele porque se sentava nos bancos como eu. De lado, e ia rodando ao longo do assento para poder ver toda a sala. O cabelo era absolutamente branco. A mochila verde dava-lhe um ar de adolescente. E o quadro que via concentrava todas as cores da sala e do Universo recomeçado num dia de Verão: Blue Pacific. Notei depois que não se mexia. E que limpava os olhos. Porque chorava? Para onde o quadro o tinha transportado? Pensei numa infância pobre numa arriba do Sul, cortado pela pobreza dos avós ou dos pais, para uma vida longe.
Passei diante, para ver se o quadro me contava mais da sua história. Os azuis, belos de terríveis. Depois à direita, no corte das falésias. Não consegui ver mais o rosto. Levantou-se e foi, surpreso da própria emoção. Só ficou o quadro. Onde um pequeno barco verde, enterrado na areia, para sempre não navega mais.

Re-ciclar a Democracia Portuguesa

Pensei que nunca iria ver isto no meu tempo de vida.
A minha comoção não é apenas por ver, por uma vez, a minha área política unida. É sobretudo por compreender que Portugal está a combater um deficit de cultura democrática, uma incapacidade de discussão; que está a limpar velhos hábitos que ficaram de controlo da igreja, do despotismo iluminado, do estado novo, que confundem debater com agredir, discordar com combater.
Quem segue a vida política europeia sabe que este tipo de acordos são legião na Europa. Aqui mesmo na Bélgica são a regra política, com coligações de pelo menos quatro partidos. A maioria não tem maioria. É melhor um Governo ou a ausência dele?

Escrevi aqui, precisamente há um mês e logo depois das eleições, que se iria abrir um ciclo novo, que se fecharia um outro que tinha começado em 1975. Na verdade, em dois sentidos: não apenas com um novo "arco de governação" mas o que ele implica: a criação de um novo modelo de desenvolvimento - que naturalmente Brux…

Diálogos Pintados, IX: Gentileschi: David contemplating the Head of Goliath

E Gentileschi inventou o azul. Pediu-o a Deus, que o guardara no Egipto, depois de pragas e devastações. E com pedra pintou a cabeça de Golias; e com carne em glória de sol pintou o eleito que escolheu para ser rei de um reino de errantes.
Nunca a cor, a pedra e a carne sangraram tão alto. Nunca a madeira, a tela, a pedra e a tinta se abraçaram tão longamente para além do tempo.
Um céu de pedra e por isso de água uma espada de metal e por isso terra; e um vento de cores disparando o ar.
Movendo-se na música sangue de cada elemento, Deus reinventou a Terra com a sua mão direita.

Jardins para o fim dos tempos: o 3º Concerto para Piano de Prokofiev

Porque umas coisas arrastam outras, lei marítima, progredimos. Nas redes atiradas à fome, surgem chaves de outros mares. Assim foi com este terceiro Concerto para Piano e Orquestra de Prokofiev, versão Byron Janis/ Kyrill Kondrashin (Mercury), que comprei então pelo Concerto de Rachmaninov que partilhava o disco. Rapidamente o motivo se tornou secundário, e foi pela ferocidade de Prokofiev que eu e o disco nos continuámos indefinidamente a procurar. O "Andante" com que o concerto abre estabelece desde logo o seu programa revolucionário: em vez de se iniciar com um "allegro" triunfante, cantante, ou quanto mesmo "ma non troppo", Prokofiev começa com uma espécie de adivinha soprada, irónica como a pergunta da esfinge, a que o piano responde, marcial, bruto, escalante, vertigista. É um jogo imenso de resposta, espelho melódico quebrando-se - onde se expande um equilíbrio que parece permanentemente improvisado. Vagas sonoras, montanhas, escalas: o piano sobe…

Diálogos Pintados, VIII: Bellini, Doge Leonardo Loredan

Não é claro quem vence: se a riqueza se a transparência. Há um azul intemporal a alargar a luz sereníssima do rosto. Olha-nos como quem ouve a morte bem perto do futuro, e está seguro das contas que ambos têm de acertar. O azul ainda e o rosto tranquilo são quase mármore, não na forma mas na duração. E o damasco das vestes prolonga-o e reflecte-o, a riqueza que leva da vida e deixa depois da morte, como uma missão cumprida.
Muito antes da fotografia, esta arte de luz olha-me do século XV como uma vida eterna: daqueles que aceitam as suas vidas e nelas caminham na transparência, prolongando luz mesmo depois de não serem carne - apenas matéria solar.

96 anos de Natércia Freire

Nos 96 anos de Natércia Freire, partilho um excerto de um livro seu, ainda inédito, O Eixo de Ouro.

"É tão irreal e duvidosa a realidade de cada um de nós, que nestas tardes de Verão recente e sol fugidio uma sensação de vida suspensa e superficial parece conduzir-nos, alheios e leves, entre as árvores das avenidas que o vento agita, por sobre corpos, veículos e jardins, enquanto o tempo se entretém a misturar as horas. Tanto pode ser tarde como manhã, aurora ou entardecer. Tanto poderemos estar vigilantes como em sonho. Uma súbita claridade ilumina e simultaneamente, varre a nossa imaginação: vivemos ou sonhamos?
Na verdade, quantos momentos, autenticamente profundos, sofreremos nós nas vinte e quatro horas do dia? A fuga vertiginosa dos minutos é muito mais rasgada em trilhos de epiderme do que em palpitações de aguda descoberta. Escoa-se a vida, à maioria dos homens, por entre vales de amortecidos ecos… É por isso que, para muitos de nós, mesmo as distâncias de séculos são inexi…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XXII

Como um sol que nasceu no sítio errado. Uma ideia que arde como uma ferida. Uma chamada que o tempo não deixa atender. Sei de onde vens mas eu nunca fui o teu tempo. Não fazes sentido hoje, como 40 graus em Dezembro. Neve de Agosto, agarras-te ao futuro como se fosses um passado possível. Lugar nenhum, volta para onde foste - e para onde alguém queira que tu sejas.

Diálogos Pintados, VII. Francisco de Zurbarán: Cup of Water and a Rose on a Silver Plate

De como Zurbarán percebeu que os objectos são a realidade.
A História é também e tanto a das redes de significado que os objecto criam e mantém. Aprendi isso com Inácio de Loyola, aprendi isso com Stephen Greenblatt, aprendi isso com poemas e quadros.
Mas este quadro é também o espelho de milhares de coisas: um copo de água trazido directamente da Primavera plena. Ou um prato de prata a mostrar as riquezas da natureza e da água. Uma alegoria ao jejum. Ou a Virgem Maria: a pureza da água e a rosa mística.
Em tudo Zurbarán o compreendeu: os objectos são o real. Tudo isto dentro do século XVII onde a humanidade se conheceu a si mesma.

Jardins para o fim dos Tempos: o primeiro Concerto para Piano de Prokofiev

A Primavera eterna, a chegar em ondas luminosas do passado e do futuro; o movimento mecânico mas perpétuo de tudo isto; e o ruído tecnológico do futuro, luz em viagem. Tudo isto ouvi e ouço no primeiro Concerto para Piano de Prokofiev.
Aos sopros de luz do primeiro andamento, futuristas ao mesmo tempo que compreendem a essência do romantismo, segue-se um interlúdio. Rápido e depois sombrio, como se se mergulhasse no estudo do próprio movimento. Quinze minutos onde a magia e a rapidez do Universo vibram.

Ouvi este concerto pela primeira vez na interpretação de Andrei Gavrilov com Simon Rattle (EMI), na colecção "Great Pianists" (alguma vez houve outra colecção assim? quando a reeditarão?). Nunca mais o esqueci: era como um elemento único, uma espécie extraordinária de água ou de fogo; um metal cortante que faria uma civilização vencer outra, um cometa que reinventasse o ar.

Para além da versão de Gavrilov, vibrante, a de Martha Argerich com Rabinovich (aqui). Argerich tem t…

Diálogos Pintados VII: Retrato de Filipe II de Espanha

Não esperava ver-te por cá. Mas até faz sentido: no maior museu de retratos do mundo, tinha de haver um retrato do perfeito filho da puta.
Estás bem, como sempre. O queixo de Habsburgo menos evidente pela armadura extraordinária. As duas únicas coisas que vocês, Habsburgo, conseguiram fazer bem: armar-se e queixar-se. Ah, e foder, mas só países. O meu (ou melhor, aquele em que nasci) nunca mais recuperou.
E logo quando voltava ao meu museu preferido, feliz de aqui estar, ofuscado pelo retrato espantoso de Southampton, pela inteligência política dos retratos de Elisabeth I, dou de olhos em ti. Como um cagalhão inesperado no último passeio mesmo antes de chegar ao céu.
E agora não te consigo tirar: cheiras a genocídio por milénios fora: mouros, índios, livres-pensadores, protestantes: de Granada à América, passando pela Flandres, por mais terços que rezasses e terços que lançasses, as tuas marcas de assassino não se apagarão. Uma bosta persistente como invencível armado.

Nota: pelos mo…

Três rabiscos sobre as eleições

Não tenho dúvidas que, vistas daqui a uns anos, estas eleições serão vistas como tendo terminado um ciclo que começou em 1975.
Antes de mais, porque o modelo de desenvolvimento que PSD e PS impuseram revelou-se insuficiente ou até falhado com a chegada da troika. O país continua sem olhar para a sua história, para a sua geografia, para as marcas da sua presença activa no mundo de hoje, e sem compreender que as suas fontes de desenvolvimento e de riqueza são o mar, a cultura e a língua.
O momento de diálogo que as eleições impuseram levará a um parlamento bloqueado seguido de outro, se isto não for claro. Um voto de protesto - ou de viragem à esquerda - de 20%, somado a quase 10% de votos em partidos que não elegeram representação parlamentar (e ainda juntando brancos e nulos): 30% do país votante não se revê nestas políticas e não o pretende. Ou há uma mudança de política ou as próximas eleições mostrarão o mesmo. É que mudança de política não se trata dos tacticismos técnicos que as…

Crónicas de Berlinzâncio: encontro numa página sem língua

Sento-me no Domingo mais manhã, no U7 entre Rathaus Neukölln e Adenauerplatz, como tantas vezes antes. A manhã é de um largo Julho ainda desprometido. Gente de todos os lados para todos os lados, como em nenhuma cidade tão vária e tão de aqui.
Sento-me e escrevo. É uma forma de andar, de ver.
À minha frente senta-se um casal. Ele de barba grisalha e olhos azuis, ela de cabelo escorrido e calças às flores. Um odor a sapatos usados e uma expressão de fome desordenada. Sacos azuis, dois, um telemóvel velho. Noto que me olham. Ao levantar os olhos para ver onde estou (perco-me sempre no U7, e é sempre em Bayerischer Platz de afectiva má memória), e o homem olha-me e pergunta-me:
- Was schreibst Du? Turkisch?
Não oiço ("A Arte da Fuga" nos ouvidos), e ele volta a perguntar fazendo que escreve, quando desimpeço um ouvido. 
Aceno que não e volto a pôr o auscultador, Bach por Marriner. Mas digo para mim: "Estou em Berlim. Já me esqueci que as histórias aqui não páram de me pr…

Diálogos Pintados VI: Caça tardia

É sempre a mesma coisa. Os patrões chegam-me a casa tarde e querem jantar para seis. Chegam de malas e bagagens cheias e de estômagos vazios, tudo para ontem. Tenho de me arranjar numa hora e não sei como. Vêm da beira-mar esfomeados e é só "Mélina" para aqui e para lá, usam-me o nome como pão para a boca. Jantar para seis, cinco patos! Como é que eu vou encontrar isto a esta hora?
Claro: tenho de ir ao Jean. Ele gosta que os patrões voltem tarde. Já está sozinho no mercado, a fumar cachimbo e a olhar para o fim do dia. Lá chego, deita-me uns olhos de chumbo doce, e vende-me a caça que não conseguiu despachar de manhã. Mais cara, claro. Os patrões são ricos, não é esse o problema. É o que ele quer depois. Da última vez disse que me fazia um abatimento se lhe desse um beijo. O abatimento não era para mim, disse, os patrões é que ganham com isso. Só se me tirasse as penas aos patos. Lá me fez o jeito mas custou-me um beijo. O que é que ele me vai pedir hoje? Que eu me depene?

Não quero um futuro retrocedido: Os vendedores vendidos