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o mar que fica depois do adeus



[cumprem-se hoje 10 anos que a minha Natércia morreu. Avó, irmã, filha, neta (como ela gostava de dizer). 
a minha amiga Ana Pessoa diz que a diferença entre sermos crescidos ou não é  corrermos sem pensar nas distâncias; depois da Natércia morrer, havia deserto em todos os lugares. partilho um texto escrito há nove anos (e adaptado). a ferida é a mesma, mas agora há luz que dela provém. a morte é a explosão de uma estrela: agora, luz e caminho, caminho e sede.]  



faz hoje o Inverno desde que tu partiste.
hoje - e que manhã no tempo é hoje – falo-te com o mesmo brilho nos olhos. caíram versos pelo chão e o calendário tornou-se Inverno todo o tempo. para onde foste, daqui apenas chegam notícias da luz e um vago, persistente e fundo eco que faz as vezes de um coração. 
quero dizer-te que sempre será o teu dia. mesmo quando a terra se voltar sobre si mesma, emocionada da sua própria dor, e emergir do nada como um canto que recria o mundo.  será sempre o teu dia; quando se abrir um porto incendiado de paz entre as ruínas das coisas, e alguém se levante, inteiro e limpo de todas as noites por dentro, no coração de água de um verso. 
será sempre o teu dia quando, ao contrário deste mundo, se saiba ouvir o que não morre no que morre.




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