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Europe by train: “dley djuzt speak Belgish”



O ICE que me leva de Bruxelas a Berlim é tão extenso que nunca sei bem onde parar na plataforma da Gare du Nord. Bom, desde que sou feliz ex-fumador, é certo que páro sempre longe dos fumadores e respectivos cinzeiros, que na Bélgica se chamam chão.
Mas nesta última viagem, manhã de um Novembro indeciso mas frio, vi apenas um gorro, daqueles que avós ou mães cosem saudosamente, as mãos sobre os fios como gostariam que se mantivessem protectivamente sobre a cabeça. E um movimento jingão, os olhos pequenos, um imperceptível brilho comprido oscilando nas orelhas. Um sorriso simpático num rosto pequeno mas largo. “Chinesa ou coreana”, pensei.
De bilhete na mão, sublinhadas claramente as horas, carruagem e local, perguntou-me:
- Eulopean?
Nunca me tinham perguntado isso. Sim, na verdade tinham, e até há poucos dias - mas no contexto completamente diferente: a gelada fila no departamento de estrageiros da Comuna, em Bruxelas (ser europeu ou não dá a alguns um guichet diferente  - em breve escreverei sobre isto). Bom, espantado por essa ser a primeira pergunta dela, respondo que sim. Veio depois, claro:
- English?
Queria saber se era ali que apanhava o comboio para Köln. E se depois era ali que trocava para Hamburg. Também lhe disse que sim. Voltou a perguntar. Estava nervosa e preocupada. Sosseguei-a: o comboio parava longamente em Köln, teria tempo para trocar. Gracejei: até para ir lá fora cumprimentar a catedral.
Depois de acalmada nas suas preocupações viajantes, perguntou-me se eu também ia apanhar o comboio. Aqui os meus dois anos alemães estranharam, e só acenei, procurando logo como me distanciar da coisa. O telemóvel saiu, já que a moça se me atracou, barrete, mala e dúvidas como bilhete de comboio.
Agradeceu. Queria mais conversa. Apontou para o painel de informações, que informava da hora de partida, da estação de destino, das paragens. Mais claro não podia ser.
- No English.
Sim, menina, mas está em Francês, Neerlandês e Alemão.
- Yes, no English.
Pois, filha, mas só te interessa a hora e o destino. Até o número de comboio está escrito, e é igual ao que está no teu bilhete.
- É normal - disse eu - estamos na Bélgica.
E ela, incomodada, como se eu tivesse descoberto a raiz de todos os seus males desde que fora feita numa carruagem nocturna entre Dien Ben Phu e Non Mih Toks:
- Dle ploblem hele ist dát dley djuzt speak Belgish.

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