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estou farto

Estou farto de um país que existe contra si mesmo.
Onde fazer é roubar: porque se se faz por coragem, desafio e experiência, está-se a roubar lugar aos outros (e roubam-nos tudo depois); se se faz para roubar, auto-estradas de palmas e jantarinhos monumentais de aclamações depois ("ele ao menos fez; roubar todos fazem", como se se dizia acerca de um certo político).

Estou farto de um país que tem tudo para dar certo, e que é absolutamente inventivo em fazer com que tudo dê errado. Que tem qualificação, recursos, paisagem, história, know how. Um país que inventou o Oceano, e meios de o ligar; um país de desbloqueadores e de ligadores - mas só lá fora, que em Portugal o punhal nas costas e o cortar as vazas é especialidade da casa.

Estou farto de um país que gasta 2/4 em pareceres, 1/4 em luvas, e 1/800 em pagar aos que fazem. Onde a riqueza vem do engodo, e não do trabalho e da coragem. Onde explorar o outro é comenda, e viver disso glória. Onde parecer é todo o currículo que substitui ser. Onde fazer nada é proveito e esforçar-se é pena.

Estou farto de um país onde as regras que funcionam são as que vêm de fora; onde o brio e o funcional é apenas "para inglês ver". Um país onde o mar é inveja, e a praia engano. Um país onde o mérito vale zero, e o prestígio é campa. Onde subir na escala social é ter um Mercedes, em vez de ter nobreza interior.

Estou farto de um país onde ninguém tem culpa; onde mesmo os acusados continuam inocentes. Um país supostamente de raiz católica onde ninguém assume os seus erros, e por isso nunca há perdão. E como não há perdão, não há progresso interior, e por isso, não há progresso civilizacional.

Estou farto deste país, que terá tido os piores três anos da sua história de quase 900 anos, e continua a preparar-se para fazer os mesmos erros. Com maior fome e fama do que antes.

Estou tão cansado deste país que faço greve. Greve a este blogue, greve a escrever, greve a ser português. Durante um mês, isto é tudo o que lerão aqui, este espinho continuado tão longo e grande como a minha nacionalidade. Greve a ser português, porque agora mesmo já respondo à pergunta: "É Português" com "nasci em Portugal" ou "a minha família é portuguesa". A minha dor, essa, é bem mais antiga do que um rectângulo com vista de mar, que existe geométrica e geograficamente contra si mesmo.

Comentários

Anónimo disse…
Estás tu e eu. E lamento ter gostado deste texto, porque uma verdade destas dói de mais para se gostar.

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