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Crónicas de Berlinzâncio: o poder da mãe dormida



Já sei que me espera uma viagem novelesca cada vez que o metro acaba (às 00h40) e tenho de fazer o trajecto para casa a bordo do autocarro nocturno que parte de Hermannplatz. O problema começa aqui: este é um dos sítios que menos gosto em Berlim, uma espécie de não-lugar, estranhoso, fuliginoso, perigosamente escorregadio no seu cinzentismo.
http://thoughtsyouread.files.wordpress.com/2011/01/berlin-post.jpgMas o autocarro traz sempre as suas surpresas. Vem cheio de dois tipos de pessoas:  as que querem ir para a cama, e as que querem ir para a cama. As primeiras cheiram a óleo, a produtos de limpeza, a cansaço tão acumulado que parece que apenas o calor do autocarro e os olhos semicerrados os mantém, embrulhados numa espécie de pré-sono. Os outros fazem barulho, ronronam, têm vozes engatadas de cerveja; espatifam-se uns nos outros como se o amanhã tivesse de se inventar numa noite rápida.
Sentaram-se os dois muito rapidamente, e com eles uma multidão de tratados. Ele alemão alto loiro e largo, daqueles que prefere uma semelhante à mesa e uma diferente na cama. Era o caso: ele dava para um anúncio de uma cerveja típica, feliz com a sua loira sonante e corrente; e ao lado, uma italiana que não conseguia esconder o sotaque por mais que americanizasse o seu inglês. Ele agarrava-a, de vez em quando repenicava-lhe as bochechas redondas de madonna de feira.
Assim que se sentara, ela mostrava-lhe no telemóvel as suas fotografias no Facebook.
- Mas porque é que tu não tens Facebook?
Ele guardava-se em copas, riu-se, talvez porque a Stasi não estivesse assim tão longe, e a reserva da vida privada fosse uma coisa que os alemães não só respeitam como defendem.
- Quem não tem Facebook é porque tem algum segredo a esconder, ajuntava ela.
Lá vieram as fotografias com risinhos dela, e um sorriso simpático dele, mas nada mais.
- Este era o meu ex-namorado – a provocar reacções. Ele estava nas suas sete quintas. Primeira coisa percebida: aquilo era recente (daquela noite, talvez uma anterior), e a moça era recente em Berlim: a história horizontal anterior (e muitas vezes a posterior) não interessa nada quando se vai “só” dormir com alguém. O jogo europeu do Sul com “olha como o meu ex era isto e aquilo” só deixou o alemão ainda mais bem disposto e seguro da conquista. A Alsácia que o diga.
Ela continuava com fotografias de festas com amigos e sessões de fotografias na cozinha e na casa de banho. A estupidez tardo-adolescente, magnificamente ampliada pela tecnologia.
O alemão alambuzava-a mais, todo braços à volta dela – até conseguiu uma vez que ela se afastasse das fotografias e por ali foram, línguas misturadas. O objectivo dele estava a ser cumprido, embora ela mais bebida que bêbeda, estivesse agora claramente no teatro. Outra diferença cultural: como nós, os sul-europeus, dramatizamos o desejo. Aqui não há bailados pela pureza: tudo é humano e o desejo quando canta é para todos, sem teatros nem falsas danças púdicas. Pois a meio do teatro ela deixa de o beijar e diz:
- Ah, eu estou aqui com o telemóvel a tentar resistir-te. Eu quero ir para casa, é melhor para casa...
Os exércitos formavam-se, ele ouvia o toque de clarim da vitória, preparava-se para a investida final. Apertou-a mais com o braço esquerdo, ela ria-se. Sussurrava-lhe (enquanto ela anunciava até à Mongólia inferior o calor das suas partes).
- Mas eu moro mais perto...
- Não, não (risos, o telemóvel em punho outra vez). Eu tenho mesmo de me comportar e sair em Wilmersdorfer Strasse, ir para casa, dormir. Já bebi demais e não quero fazer ihihihi nenhum disparate ihihi.
Claro, o alemão era todo braços e presença. Ele sabia que bastava insistir sendo. Ela, habituada aos poderes conversatórios dos italianos, estranhava aquela persuasão eficiente, passiva nas palavras e nos actos, mas muito estável. Estava a gostar, era evidente: sentia-se protegida, apenas como uma pessoa estrangeira às três da manhã numa cidade estranha antes de saltar para lençóis alheios se pode sentir (ou era essa a retórica suavemente panzer dele)?
- Mas a tua mãe...
- A minha mãe está a dormir. Mas qual é o problema?
- Não, com a tua mãe em casa... O que ela vai pensar?
- Ela está a dormir. Ela não vai pensar (prémio de pragmatismo Bus às 3 da manhã).
- Ah, mas eu vou para minha casa. Eu tenho de resistir, eu...
Ele lançou o seu melhor submarino osculante. Risos.
- Mas a tua mãe...
- O que tem a minha mãe?
Saí aqui, in media res. Das duas uma: ou a moça não ia com receio da matrona, quer esse receio fosse presente ou futuro; ou ele levaria a sua a melhor, e teria as duas mulheres (mãe e italiana) debaixo do mesmo tecto. Elas que se esgatanhassem de manhã enquanto ele bebia a sua cerveja.
Mas saí em pleno poder da mãe dormida. Que entre a Itália católica e pudorenta, e a Alemanha pragmática, pesaria da decisão de haver ou não alegrias horizontais naquela noite.

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