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Concerto para assombro e orquestra

Decorreu, de dia 1 a dia 6 de Dezembro, o "Beethoven Music Chapel" festival, em Flagey, em Bruxelas. Para além da boa surpresa de encontrar Maria João Pires no programa, um outro assombro: Krystof Penderecki, um dos maiores compositores vivos, iria estar presente no que o programa considerava ser uma "pequena traição a Beethoven". Todas fossem assim.
Na quinta-feira, dia 4, Penderecki dirigiria de facto duas peças não Beethovianas, e o Concerto para Violino do mestre de Bona. Interpretava o concerto a novíssima Liya Petrova (25 anos), que foi a delicadeza e a singeleza em pessoa. E eu, que nunca tinha ouvisto um compositor dirigir ao vivo, espantei-me pela grandeza da interpretação: Penderecki de facto interpretou Beethoven; percebeu que o seu papel era acompanhar o violino, e não saltar em bicos de pés e chamar a atenção para a orquestra como tantas vezes oiço - e ainda para mais em Beethoven, onde todos os maestros pensam que estão a dirigir a Nona Sinfonia.
Recordo com o coração esmigalhado e o Universo a rasgar-se, como nunca tinha ouvido um concerto tão íntimo, tão sussurrado, tão pessoal.
Depois, Penderecki dirigiu a sua 2a Sinfonia. E aí todos os fantasmas se instalaram. A orquestra tornou-se uma máquina de sonhos e um movimento de ferros celestes, uma marcha desde o frio totalitário até aos grandes mares interiores. 
Foi como se ouvisse a peça desde o seu primeiro pensamento até ao seu último céu. 
Um concerto para assombro e orquestra.


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