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morreu o mais nobre nobre

Quando morrem pessoas maiores do que elas próprias, é quando o mundo começa de facto a tornar-se pequeno, ilha minusculante, rodeada de morte por todos os lados. 
Assim era o Fernando Mascarenhas (1945-2014): um ser maior que as suas forças, maior que tudo o que o rodeava, maior do que a vida. E se isso é raro, mais ainda quando o Fernando trazia no sangue tanta gente forte e independente, desde o general da Restauração Fernando de Mascarenhas (1º Marquês de Fronteira) à Marquesa de Alorna. Diz ele no seu Sermão ao Meu Sucessor que não lhe importava ser nobre, se não fosse mais interior e praticamente nobre do que os outros - que isso era para ele um dever, não um direito.
Escrevo com muita emoção, pela amizade que desde 2000 nos unia, quando, por intermédio de Clara Rocha, fiz uma leitura de poemas de Ana Hatherly numa festa de Solstício de Verão no Palácio. 
Eu tinha lançado o meu primeiro livro de poemas uns meses antes, e o Fernando leu-o pouco depois. Marcou-me desde logo a estranha e natural aliança que o Fernando sabia estabelecer com as pessoas: disse-me a verdade sobre o que pensava, mas com uma generosidade de leitura, e um sentido de humor cativante. Com o Fernando era sempre assim. Seguiram-se a essa leitura no Palácio muitas outras, e durante anos tive a honra de participar como leitor nos ciclos de poesia do Palácio, lendo desde a integral de poesia de Camões à poesia mais recente. E também a essa opinião crítica sobre o meu livro se seguiu outra, sobre o segundo, as flores do sono - que o Fernando lançou, no Museu de Arte Popular, em 2002, precisamente dizendo que não gostava do livro.
Seguiram-se anos em que a presença e a amizade do Fernando eram uma luz constante e um desafio carinhoso em todos os aspectos da minha vida; no Palácio celebrei tantos momentos fulcrais da minha vida pessoal, partilhei textos onde cresci, encontrei outros tantos amigos. O Fernando sabia fazer daquele espaço simultaneamente Passado e Presente, numa arte de abertura e partilha cuja partitura só ele dominava.
Neste espaço de anos, vejo oceanos; tanta vida que ele tornava sol, escadas, mistério e partilha. E tanto que guardo como tesouro, como degraus entre o entendimento e o espírito.
Veio depois a minha diáspora, depois a doença dele. Recordo o nosso penúltimo encontro, depois da hospitalização, em Junho de 2013, que o deixara então à beira da morte. Falava pouco, mas a sua energia e interesse pela vida mantinha-se. Pegou num livro de Goethe e leu-me - "em Alemão, porque agora é a tua língua", um pequeno poema. "Gefunden". Era este:

Ich ging im Walde I was walking in the woods
So für mich hin, Just on a whim of mine,
Und nichts zu suchen, And seeking nothing,
Das war mein Sinn. That was my intention.
Im Schatten sah ich In the shade I saw
Ein Blümchen stehn, A little flower standing
Wie Sterne leuchtend Like stars glittering
Wie Äuglein schön. Like beautiful little eyes.
Ich wollt es brechen, I wanted to pick it
Da sagt' es fein: When it said delicately:
Soll ich zum Welken, Should I just to wilt
Gebrochen sein? Be picked?
Ich grubs mit allen I dug it out with all
Den Würzeln aus, Its little roots.
Zum Garten trug ichs To the garden I carried it
Am hübschen Haus. By the lovely house.
Und pflanzt es wieder And replanted it
Am stillen Ort; In this quiet spot;
Nun zweigt es immer Now it keeps branching out
Und blüht so fort. And blossoms ever forth. (*)
 
Replantar a vida, replantar a beleza: era isto que o Fernando fazia com a vida, mesmo quando ela o limitava por todos os lados.
Não: o mundo, ilha minusculante, rodeada de morte mas de céu por todos os lados. Obrigado, Fernando.

PS: Este texto é escrito com o calor da distância física, com a tristeza irrevogável. Não queria deixar de estar presente. Imperfeito e breve em tudo, o contrário do que deveria ser; sei que o tempo me ajudará a lançar a voz mais longe, mais tarde.
(*) Translation: Hyde Flypo, aqui.

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