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Inquisição e Justiça

Sobre o caso Sócrates não tenho nada a dizer per si, embora tenha uma opinião há muito formada sobre como foi nociva esta figura. Mas sobre o caso quero apenas sublinhar a coragem da justiça em não temer deter um ex-primeiro ministro para o questionar (e agora prendê-lo preventivamente). Tirando o sublinhar dessa independência e coragem, não entendo o ruído. Esqueçamos que se trata de um ex-PM, mas sim do Sr X, que actualmente vive no estrangeiro. Este foi detido no aeroporto quando se somam suspeitas (e provas), quando mudou o vôo várias vezes nesse fim de semana, e a primeira coisa que a polícia faz no dia seguinte é precisamente ir à sua residência buscar papéis. Se fosse o Sr X ninguém estranharia isto. Ninguém está acima da lei, e o poder deve estar ainda menos. Nisso, sim, senhor actual PM: os políticos são de facto todos iguais perante a lei. É isso que estamos a discutir, porque até aqui não parecia assim.
Claro que desde a prisão do Marquês de Pombal que não se assistia nada de semelhante em Portugal (e o nome desta operação é precisamente "Marquês"). O que me interessa é perceber de onde, porquê vem tanto ruído da questão; e parece-me que se prende com um simples facto: procure-se nos livros (sobretudo em muitos manuscritos inéditos ou treslidos, como o fiz) e perceba-se que quem tinha a tradição em Portugal de deter para um questionário longo, sem motivos senão vagas denúncias, era a Inquisição. Richard Zimler teve a coragem de escrever dois sustentados romances sobre este tema.
Vivendo fora de Portugal, em países onde a Inquisição não teve a rédea larga que teve na Península Ibérica, noto com espanto longo e antigo como tantos métodos, tantas reacções, tantos medos, denunciam o espectro e a prática antiga desta instituição em Portugal. E antes de mais na reacção das pessoas: na praça pública (onde já se sente o cheiro das fogueiras onde depois arderá o corpo) todos julgam, condenam, lincham. O poder do Direito é ainda pequeno em Portugal; a tradição da Lei é a da religião da culpa. Enquanto Portugal não se libertar desta velha concepção, nunca progredirá como país. Por isso, o gesto livre da justiça em deter um ex-PM para interrogatório é um gesto fundador e produtivo - aconteça o que acontecer. Mas não, o português quer ver o condenado arder, em sambenito como os inimigos do Bem devem ser - é essa a sua noção de justiça.

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