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Crôuvicas de Bruxelas: a senhora entre

Ela está no mesmo bar que eu, mas do lado de fora. Mas não podíamos estar em dois bares mais diferentes estando no mesmo. Ainda está no fim do Verão, enquanto eu estou no doce Outono, por isso nos separa um vidro. Sempre que lanço os olhos fora para me outonar nas árvores, é o vestido vermelho dela que me assalta os olhos. O peito é encarnado, e degrada-se aos quadrados brancos até aos cotovelos; e mesmo que isso aconteça também às pernas, é o entrançado negro que salta. Não sei se esta espécie de grosso e quadrangular tecido prende as pernas, ou protege-nos delas: se quem inventou tais meias e quem as usa, o faz por precaução (cívica ou vigilância ética ou moral). Os brincos compridíssimos na cara misturada de vietnamita com belga - o sotaque valão não engana um sabão.
O telefone, com mensagens que a fazem prender-se; o email que abre e começa a escrever e depois desliga. Quem a prende assim, a ela que veste vermelho e luto. Reparo agora que o casaco que a cobrirá quando para ela fôr outono é preto às bolinhas brancas. E tudo me parece uma juventude demasiado rápida que ela desejou que não acabasse. Voltou o rosto: tenta enganar os 50 com botox evidentes. 
Tudo fala disso:  desse casamento novo e rápido que lhe tirou o fim da adolescência. E agora viaja e viaja-se. Procura esquecê-lo. Mas é o casaco negro que acabará por tapar, assim que os ventos do inverno cheguem, o casaco vermelho.
O email, o telefone. Olha para baixo, para a rua. Os nossos olhos cruzam-se. Pergunta-se sobre mim. Espera alguém. O outono leva-a a ser vigilante. Sente-se incomodada, o frio veio de onde menos esperava. Mais dois voltar de cabeça, como se divisasse o impossível no fim da rua. O olhar para o fim da rua, que antes era com um meio sorriso divertido, esperante, torna-se agora uma coisa incómoda, a máscara colada à cara.
Levanta-se. Vem pagar. Diz à rapariga do bar, com uma voz veraneante: "Quero pagar. Já fui demasiado paciente." A rapariga recebe o dinheiro, ela tem de lutar contra o Outono: "Ele diz que está a cinco minutos...". 
Põe o casaco. O desconforto é tão grande que simula estar interessada no painel com os vinhos. E sai, já inverno sobre o vermelho e o negro.



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