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Crôuvicas de Bruxelas: Paul Delvaux desvelado

[a propósito da recente exposição no Museu de Ixelles, em Bruxelas, que pode ser consultada aqui.] 

Bilhete de partida ou de chegada: os quadros de Paul Delvaux (1887-1994) são como um sonho. Não sabemos, sobre aqueles que "sobram", aqueles que vêm da parte do sonho para a vida acordada, se são pontos de partida para serem lidos; se rebentações de um processo, cujo estertor nos acordou.
Têm porém um selo de distância que os sonhos não usam na sua linguagem: essa espécie de presente intemporal, ruína e via, manhã anoitecida.
Mulheres no centro. Sempre mulheres nunca, de si mesmas, sem que os demasiado ausentes ou cobertos homens as possam aproximar ou abarcar. A nudez é porque não têm véus na sua tristeza, porque entre o seu fundo e a sua realidade tudo é sem máscara.
Os comboios, depois. Uma espécie de solidão tão longa e intemporal desde as vias romanas. São uma espécie de paisagem que já ali estava, que apenas esperava o sonho do ferro e o fogo do progresso para começar a ser. A pintura, o quadro, por isso, cumpre o seu papel revelatório: de desvelar o que apenas já ali estava, já ali existia, porque o pintor está onde o tempo se forma, na raiz dos olhos.
Por fim, a violência da desmontagem. Ele desfaz o céu e as suas pré-concepções necessárias do céu e dos seus tempos intermédios.
Delvaux é por isso o bilhete de uma viagem sem regresso: uma gravura do sonho, a marcar-se muito funda e alta, na via que vai do sonho ao presente infinito.

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