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Europe by Train, VIII: Peruada



Eu já a conhecia dantes. Mas quando ela me olhou, o ruído da pergunta longa “quem é” ecoava na plataforma conquistada pela potência decidida dos seus saltos altos. Estava na mesma, ou talvez de facto os meses tivessem passado por ela. Ou a escolha de penteado agora não fosse a melhor. Era uma torre loura, obra de um escravo cabeleirante tão sofredor quanto genial, e todo esse investimento frisante deveria então ter-lhe tirado uns anos. Que agora estavam ali, sublinhados e claros, enquanto devastava a passadeira com o seu olhar impositivo de Catarina, a Grande, detentora dos segredos da etiqueta. E das etiquetas: arranjada cada vez como para a tomada de posse do seu génio, inventada cada vez como se chovessem tailleurs e combinações, vestidos de gala e corpetes, e do ar se formassem para ela formas de sapatos que a sua elegância facécia torneasse.
Não trocámos uma palavra. E da primeira e única vez que a vira antes, apenas duas frases – sendo que a segunda foi quando entornou sobre mim um copo de água. Então, antes do dilúvio, admirei aquela figura de cara larga e pose de princesa desterradamente incompreendida, os gestos despachados de quem se irrita com tudo menos com a toillete. A quem o mundo devesse permanentemente uma desculpa ou uma explicação, já sem falar de uma reverência, devido ao facto de ser bela e atitudamente superior.
E assim a vi passar, e entrar na 1ª classe. Bela figura paga pelo erário público, inútil como a cara cavalar que passeia por onde lhe arranjem utilidade – já que a alta costura se paga com motivos, tal como a sua existência se deve à única capacidade que funciona em Portugal: o factor C. De que ela, salto de agulha e inutilidade comprovada, é relicário e bestiário ao mesmo tempo.
Vejo-a afastar-se, levando vestida ao longo dos anos que várias artes de maquilhagens querem esconder, a longa conta feita dos ordenados mínimos de tantas famílias emigradas.

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