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Europe by train: os nervos da fronteira



Tudo corre bem quando venho de Berlim até Köln: no horário, na placidez volante, no cumprimento e no silencioso bem-estar geral. Mas quando mudo de comboio para a parte mais pequena do percurso, Köln-Bruxelas, o caos instala-se. E no percurso inverso, Bruxelas-Berlim, repete-se.
Subitamente o comboio, que parece grande na primeira parte, afunila-se numa confusão de malas e de sacos, de pressas e de impossibilidades: o dilúvio é bagageiro, e fala Francês, Neerlandês e Alemão. E Inglês americano, com nasalidades e prolongamentos que denunciam rapazes fugidos às fustigações do “Bible Belt”, sulistas a libertarem-se dos excessos de educação através de uma viagem à Europa.  Repetem-se nas dezenas de comboios Berlim-Bruxelas que tomei nestes anos. O que vêm fazer a Köln? Mind my French, vêm à capital gay da Europa levar no cu, como nos anos 90 os meninos lisboetas que queriam começar a subir horizontalmente iam a Madrid (e as meninas a Londres). É melhor cessar aqui o desvio, que sei bem mais do que o que digo, e digo muito menos do que sei.
Dilúvio bagageiro, babel linguística. E outro pormenor: esta gente quer poupar 2 euros e não reserva o lugar. Portanto, é entrar vilanagem, e tudo à espera de pé que um Alemão (sempre) desaloje um Americano ou um Francês. Aqui as fronteiras entre o mundo romano e germânico falam em toda a parte: os germânicos (incluo os Flamengos), poupados como ninguém, gastam uns tostões para não haver confusão; e os outros, que seja o que fôr. É ler Júlio César, está lá tudo.
E não é apenas isto: é a converseta permanente, a barulhagem, a irritação. A sensação permanente de um problema qualquer. Lembro numa viagem um senhor e dobrar os oitenta, mas enérgico, que passou a viagem a pendurar coisas no cabide e a tirá-las, a perguntar setenta vezes sete informações dos horários (atrasados) da ligação, a pôr e tirar o chapéu de chuva do cabide. Mesmo os Alemães falam mais alto do que o habitual. É sempre quando a confusão me impede de dormir. É sempre quando escrevo estas crónicas, talvez por isso muito “genervt”.
Este mistério mensal ficou finalmente resolvido na última viagem, em que estive 20 minutos de pé, malas e bagagens (quase a tornarem-se armas), enquanto a irresolução inchava pela carruagem 25 fora. Mas foi claro como água: são os nervos da fronteira. Trinta anos de Schengen nada valem contra três mil. É ler Júlio César, está lá tudo.

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