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Europe by train, IX: phone bullying


Eu estava na plataforma apenas a fazer o que gosto de fazer nas plataformas de comboios, agora que sou não-fumador feliz há quase seis meses: a ver. As pessoas estão entre seres vivos e personagens, com a urgência e a inevitabilidade de terem um destino, e aguardarem um enredo (o comboio) para se realizarem. É fascinante: então nas gares internacionais, o que se vê é tremendo – toda a história dos carris de ferro na Europa desde o tempo do amor a vapor.
Eu estava portanto plataformando, ou platavendo, ou platimaginando, quando oiço uma voz baça numa correria de consoantes e entoações descabeladas. Demorei cinco minutos a perceber o que era. Votei primeiro em Dinamarquês, depois jurei por Neerlandês, depois pela variante Holandesa do mesmo, até que para meu espanto reparo que era mesmo Inglês.
Ele não teria mais de vinte anos. Um pólo azul marinho, claríssimo, o cabelo castanho quase ruivo tão fino que os movimentos da cabeça retumbavam a frisar os horrores das consoantes. É que ele não falava alto, ele só não parava. E tão azul nos olhos e na camisa que  parecia angelical e pacífico, quando a artilharia vocal o desenganava.
Na tal língua imperceptível que vim depois a compreender, ele fustigava azedamente uma tal de “Mel”. Ela perseguia-o no Twitter com comentários manhosos; ela disse coisas inenarráveis sobre a fotografia do lago (?!?) no Instagram ("everything but the lake, Mel, hakudja"). Mas pior ainda era o que ela andava a fazer no Facebook – e ele tinha o programa para ver que ela andava sempre a clicar nele. Aquilo tinha que acabar, Mel, ou ele ia destruir a reputação virtual dela. Reproduzir o seu ar das acusações, a carga furibunda das sanções, tarefa impossível. Só sei que depois de 10 minutos intensos, mas sussurrados, ele meteu o telefone no bolso e foi satisfeito para o fim da plataforma. 

E ainda há quem diga que não se viaja tão bem de comboio – e por tantas almas, tão virtualmente descarriladas.

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