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E o mundo termina num virar de página



O S. e eu fomos ontem à noite a Flagey ver um concerto de Ivo Pogorelich. Há muito tempo aguardado e comprado – Pogorelich estivera longe dos palcos por muito tempo, e eu nunca mesmo o tivera visto ao vivo. O programa era, porém, gigântico: a Sonata “Dante” de Liszt, acoplada com a “Fantasia” de Schumann: duas peças fantasmagóricas, de um reviravoltante pianismo, todo efeito e excesso, todo técnica, mas onde não era preciso um sentido de arquitectura como, por exemplo, numa Sonata de Beethoven. E a segunda parte não seria diferente, a “Petruschka” de Stravinsky seguida das Variações “Paganini” de Brahms.
            Entrámos na Sala, meia-cheia. É uma sala multi-usos não particularmente bonita. O piano estava no centro e um homem de gorro curvava-se em cima do piano. Pensei ser um afinador. Depois recordei as últimas fotografias que tinha visto de Pogorelich. Era ele, nuns últimos acordes de Stravinsky. Ali ficou até faltarem dez minutos para o concerto. Nunca tinha visto nada assim: como se estivesse a dessacralizar a sua chegada de fato e de facto uns minutos depois; como se quisesse que não houvesse diferença entre o adolescente de gorro que nunca tinha crescido senão dentro de um piano, e o homem austero e áspero que lançou fantasmas pelas mãos de Liszt e Schumann.
            Voltou atrasado, com as partituras e um vira pautas. Antes de se sentar, mandou o vira-pautas sentar-se mais atrás, fazendo um movimento de braços a dizer que queria espaço. E depois começou – aquela terrível Fantasia-Sonata de Liszt em que parecia invocar alguém. E sempre que acabava uma peça, antes de agradecer ou levantar-se, trocava as partituras. Como se quisesse ver tudo aquilo despachado. A primeira parte foi fria – com excepção do final da Fantasia, de uma delicadeza e de um tempo extendido. A sala, impessoal, prolongava o gelo. Ouvia-se o palco cada vez que Pogorelich se mexia, o banco rangia, tudo parecia antecipar uma catástrofe.
            Na segunda parte, as suas mãos dispararam foguetes na “Petrouschka”. E quando chegou a Brahms, com o público às suas mãos, aconteceu o inesperado. O vira-pautas, que tinha pacientemente voltado as folhas, foi olhado uma vez durante muito tempo numa variação de Brahms. O que teria feito? E depois repreendido. Pogorelich parou, voltou as folhas de novo, e disse-lhe qualquer coisa. Não se percebeu se o rapaz passou as folhas mal, se muitas de repente. E Pogorelich voltou a tocar, acabando cada variação com um voltar de folhas irritado e burocrático. O vira-pautas ainda tentou compensar, voltando as folhas numa variação maior. Mas no fim, Pogorelich levantou-se, pegou nas pautas, puxou o banco para debaixo do piano – sublinhando “não volto mais”, e por mais palmas que tivesse, voltou uma vez, inexpressivo e vazio, para nunca mais.

            Por mais que Pogorelich tenha um talento imenso, e tenha feito o esforço do regresso, tratar assim o público é demasiado. Achei que as palavras escritas aqui quando voltou há oito anos eram excessivas. Talvez não.
Ninguém tem culpa do génio.

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