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desnaufragadas: páginas de Diários dormentes, I



Descobri, nas arrumações que trazem e precisam as mudanças, vários ficheiros de um Diário que fui irregularmente escrevendo entre 2000 e 2006. Começo com eles uma rubrica nas Crónicas. Aqui vai um excerto com doze anos que envelheceu bem.

A luta da literatura pela identidade, que marcou o século XX, começou antes, na verdade, com Oscar Wilde. Quando os valores começavam a cair no manto de rigoroso bolor que é o vitorianismo, prévio ao último império, o americano, quando o primado da razão inicia o seu estertor final e a religião sofre um quebrar de trave como estrutura, um esteta mais grego que ocidental, mais anterior ao Cristianismo que depois dele, resgata a personalidade e morre na cruz de si mesmo. É impotente contra a massificação, mas a sua obra e a sua figura sobrevivem; daí nasce o modernismo, e daí nascerão também outras lutas (o feminismo e o movimento gay não são senão uma luta pela independência da personalidade, apesar da massificação que sofrem, tanto ou mais que os outros movimentos). Pessoa prevê o centro do conflito, e explode essa multiplicidade unívoca, cujo equilíbrio é impossível: não se pode ser um e massa ao mesmo tempo – por isso cada vanguardista morre de si mesmo. Régio apresenta o caminho: a imitação (“o estilo”), a repetição até ao fim de modelos (de que o próprio vanguardismo, se continuado nos mesmos moldes, seria); ou a personalidade, cravando a originalidade e o mergulho desesperado e místico no eu como caminho. Isso o dizem todas as artes: o único paradigma da crítica é a originalidade). 

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