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Crôuvicas de Bruxelas: Lava-duras & Deter-gentes I

[Começo uma série nova: a dos utilizadores da lavandaria automática, o bom do "Lavoir", onde passo uma das minhas mais divertidas horas semanais.]

Ele não terá ainda 25, mas lá em casa nada mudou desde que tinha 16 e lhe ofereceram a primeira mota. A mãe encarrega-se de tudo. Ele tem de gerir a sua relação com o mundo exterior, ela é como se fosse simultaneamente estrangeira e surda. Para juntar ao modo "eu só vim ver a bola", em que se limita a olhar para as coisas que ele resolve, vem acompanhada de um poodle que parece drogado, já que praticamente não se mexe. Que mulher é esta e que história é a dela, para precisar de tantos intermediários entre ela e a realidade? E está arranjada; e fala Francês com o filho. Que história a prende mas também lhe facilita a vida?
Sentam-se os três nas cadeiras ao meu lado - o poodle no chão, quase irreal de tão imóvel. O entretenimento da mãe é ver os círculos infinitos que as roupas descrevem na máquina. Não fala, não diz mais nada. O que mais espanta é que a senhora não tem nada de visivelmente (ou audivelmente) limitado ou limitante. É um prodígio da limitação. Ele concorda com a cabeça quando ela sussurra alguma coisa a cada 5 minutos, mas não larga o smartphone com o jogo de computador.  Ele usa o cabelo muito curto, quase como se fosse careca. O nariz longo dá-lhe um ar antigo, sério, que os jogos de computador desmentem. Calças de fato de treino e ténis pretos, e um casaco verde e preto entre fato de treino e estilo. O brinco à Ronaldo na orelha esquerda. Jogou cem vezes mais futebol do que fez desporto horizontal. Vive de ajudar a mãe e por isso fica lá em casa como se fosse o marido. Terá o pai morrido? Ela não tem aliança. É isso: o jogo da pobrezinha. Este rapaz nunca casará, a mãe não vai deixar. E se provas não faltassem, isto de passarem 40 minutos os dois sentados + poodle sem trocarem uma palavra, e vir ao Lavoir fosse um evento, bem mostra como a mãe é, foi e será o seu controlo-remoto.

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