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Crónicas de Berlinzâncio: Hauptstrasse


 
A J. e eu demos um dos passeios de bicicleta mais longos da nossa existência num Sábado de Abril. Havia luz suficiente para a terra inteira e nem a feira de livros usados em Fehrbelliner Platz nos impediu de ziguezaguear até ao nosso objectivo, o Parque de Wilmersdorf.  Mas havia luz para dois planetas, e fomos até a um dos segredos mais bem guardados da cidade, o Ceciliengärten, onde um dia, mais tarde, eu convenceria um sofredor milanês que o livre-arbítrio se conquista à educação.
Mas naquele dia de luz tanta eu não conhecia o jardim: as fachadas originais e intemporais, o céu breve das cerejeiras japonesas em flor, o relvado que faltou ao Esplendor na Relva para que o fosse.
Mas quando o jardim acabou, a serpente. Uma rua barulhenta e cinzentada, cortada pela estação de Innsbrucker Platz. Conhecia aquela rua. Não o soube pelo nome, não o soube por dois ou três edifícios incaracterísticos mas conhecidos: soube-o pela dor. Aquela rua doía-me.


Recordei a manhã de neve de um Janeiro cortado, e a noite que a precedeu. Eu não sabia como era rápido e golpe o caminho entre a intimidade e a estranheza. Tornámo-nos estranhos, enquanto "Far from Heaven" rebentava as cores do Outono em que nos achámos – como um filme que nunca nos pertencera.
A noite que não dormiu comigo, a manhã gelada, e eu a descer aquela mesma rua com a neve a esconder-me os olhos. Hauptstrasse: rua principal. Rua alta. Faltava-lhe o jardim para eu beber-lhe o símbolo.
Havia luz demais, mesmo na rua escura. E eu desci a rua que subia, até onde doía.

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