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Jardins para o fim dos tempos: a 3a Sinfonia de Brahms


Foi só há pouco tempo que percebi que o dia tinha chegado. Achei que não estava preparado.
Escrever sobre a sinfonia onde comecei a ouvir música, a sinfonia que me disse que a música era um espelho e uma paisagem infinita em construção - só pensei fazer isto muito tarde na vida. Agora é agora.
Claro que não estou preparado. E por isso, desde já: este texto é um fragmento. Mas chegou a altura de o escrever porque esta Sinfonia veio de novo ter comigo, quando eu já não a esperava. Como se a pudesse ouvir pela primeira vez. E isso é um privilégio raro.

Sei muito bem a primeira vez que ouvi a Terceira Sinfonia de Brahms: Carlo Maria Giulini em Lisboa, num Domingo à noite dos meus doze, treze anos. Aqueles planos de sons, como braços de cometas a rasgar o espaço - como se se inventasse a luz, pela primeira vez. Saí para a noite inteira, olhando para o Coliseu, o Rossio, a cidade pelos vidros do carro, como uma pergunta de respostas ramificadas em outras perguntas, em estrondos de novas rebentações. Mais do que fazer-me perceber o mundo, a 3a de Brahms tornou-se uma imagem de como o mundo existe e vive para além da imagem que projecta.

Depois, 1997: a vida recomeçava através dos clássicos. E no dia dos meus 23 anos, oferecem-me a 3a de Furtwängler representada acima. "O orgasmo da morte", escrevia o Guia "Les Indispensables" que eu lia como bíblia diária. Na minha autobiografia (escrita apenas para mim como exercício pessoal), recordo-me bem do que aconteceu em mim depois de ouvir esta gravação pela primeira vez. Este texto (desconto de adolescente oblige):

"posso hoje definir que nesse momento o amor da impermanência, o coração incapaz de ter-se nas suas paredes, a inquietude aquática do meu interior, se encontrou – como nos encontramos no lugar de onde nascemos e para onde vamos, como a nossa alma entende quando nasce e quando chega, partindo, ao lugar de onde veio, que é sempre um lugar mais adiante feito do corpo -, está na Terceira de Brahms."

E posto isto nada há mais a dizer - nem falar dos andamentos. É que a 3a de Brahms é também um exemplo de enredo perfeito: o 1º e o último andamento fecham-se e completam-se como um arco.
Interpretações
Não há 3a de Brahms sem Furtwängler: e lamento que isto possa surgir como excessivo, dramático, definitivo. Mas a redescoberta - há dias - desta gravação (série da revista francesa "Diapason", número de Maio de 2014) redescobriu-me a sede. Narração, detalhe psicológico, drama, explosão, intensidade absoluta. Uma das grandes gravações de música do século XX.

Para um contraste total (uma leitura sem nenhuma concessão ao sofrimento), oiça-se a versão de Fritz Reiner com a sua CSO (RCA): a nudez fria da faca antes do golpe. Mas há também que mergulhar noutras versões, como a de Cantelli com a Philarmonie (EMI), Toscanini (Testament), Abendroth (Berlin Classics). Bruno Walter tem de ser ouvido, pela clareza romântica (Sony). Depois de muito esforço, e de alguns momentos altos, não consigo continuar a perceber a loucura que a versão de Haitink (Philips) causa nos críticos, embora lhe admire a quadratura do círculo entre violência e calma - que Guilini (EMI) ganha sem dúvidas. A surpresa para mim está numa versão de quem ninguém fala, a do rigoroso e modesto Hermann Scherchen (Tahra) em Lugano: como sempre numa leitura de Scherchen, os aspectos inventivos, "novos" de uma obra são sublinhados com  impetuosidade sonora.






















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