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Europe by train, VII: schlechte Verbindung


 
Só reparei na mochila cor-de-laranja que se sentou no conjunto de 4 lugares ao meu lado, juntamente com uma executiva artística que não largou o telemóvel durante toda a bendita viagem de quatro horas entre Köln e Berlim. O problema, devo sublinhar, não era de facto que falasse alto, como os europeus do Sul; mas que sobretudo não parasse de falar, apesar da “schlechte Verbindung” (as falhas de rede) da ligação telefónica. E eu, que voltei a cair nos braços de um dos mais inventivos livros que li nos meus primeiros vinte anos (Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar), tive de parar o livro tantas vezes que o deixei para um mais tarde triste, salivoso, querendo cair naquele vale de orações concatenadas como um discurso ininterrupto, não em Alemão sobre merdas para as quais já é tarde demais registar-se mesmo em Potsdamer Platz, ou no mal servida que foi a última recepção em Alexanderplatz, que assim ela terá de procurar outro fornecedor. A cólera, minha, duplificava-se, o Raduan a estender-se como uma paisagem onde perder a gramática, uma casa breve onde esquecer, elevado ao sol da língua, como sou apenas um estrangeiro que não fala o seu idioma há três semanas, numa carruagem entre a cidade onde será e aquela onde foi.
Dupla, a cólera: por não poder perder-me no livro; por querer – como aprendi com os berlinenses – rosnar à telafonadeira que incomodava os passageiros do “Ruhebereich” (carruagem sem ruído) com a organização precisa e telefónica da vida que manifestavamente não tinha. Tinha sido bonita, sim, mas os cinquenta escorregavam depressa para os sessenta, e era urgente parecer nova, profissional, ainda dez, quinze anos pela frente de grande capacidade de organização. Esta gente, penso enquanto a vejo endireitar o cabelo preso num chinon, é internacional: organizam o seu trabalho atirando-o para cima dos outros. E agora é o computador, que arranha tecladamente enquanto continua a olhar para o telefone. Desconfio que terá já ligado de A até G, espera-nos ainda meio alfabeto, e a Kristen que preferia a sala azul, e que pena que já seja tarde para me inscrever para o evento, a cólera a formar-se tanto que me lembrei, antes de partir o copo, que foi para isto que Deus inventou a música e Schubert o seu Quinteto para Dois Violoncelos D956, com o drama em cena do Hollywood String Quartet, benditos filmes que os uniram.  
E tal como vejo Bilderfeld afastar-se pela janela, um campo de imagens à distância, assim também a cólera viaja para longe, porque Deus inventou Schubert e ele o Adagio, vejo como foi alta e tormentosa; tanto que a mochila cor-de-laranja, motivo deste que aqui e agora termina, ficará para o próximo post, esmagado de adiamentos sucessivamente caindo e reconectando-se, como uma cólera, fria, sobe aos lábios e os bebe.

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