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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2014

Qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XIII

Se puderes chegar um pouco mais cedo, agradecia-te. Tenho as malas feitas para o caos, e dava-me jeito apanhar a ligação anterior, directamente para a aorta esquerda. Contei-te do meu projecto? Quando lá chegar, a aorta vai rebentar e desse sangue eu farei um jardim. Por isso, se puderes chegar um pouco mais cedo, ficava-te tão grato. Tenho dez kilos de mágoas para levar, e sabia-me bem chegar lá antes de antes. Sabes como é, ter tempo para me sentar, beber um café, ver as vistas, preparar o momento. Beber um copo de ar. Chega então um pouco mais cedo: estou atrasado para mim há mil anos, o céu dói-me em camadas, e falta ainda tanto tempo para tudo chegar.

Europe by train: crochet

como um discurso histórico fez o maior "comeback" dos últimos anos

A Escócia decidiu ficar no Reino Unido. E se isso foi uma decisão livre - uma discussão profunda e longa que a Espanha, por exemplo, se recusa a fazer - também se deve a uma pessoa só: Gordon Brown. Não apenas o desterrado e desacreditado último primeiro-ministro trabalhista foi uma escolha invulgar para ser o porta-voz da campanha do "Não" à independência, como foi o responsável pela vitória. Em três pontos: as ideias de devolução de soberania são suas, tendo conseguido um consenso dos três grandes partidos britânicos para tal; nos jogos de bastidores que tornaram essas medidas possíveis, e de que um dia a História dará notícia clara, não tivessem os Britânicos inventado a "micro-history"; e através do discurso (ver vídeo) que voltou a mesa (ver tudo aqui). Brown reinventou o Reino Unido, voltando o referendo como um espelho de identidade. Agora a Inglaterra tem de se repensar, também. Mas certo e sabido é isto: Brown fez o maior "comeback" de que há m…

Europe by train, VII: schlechte Verbindung

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XII

por ser verdade é que surge, e só surge porque é verdade. cântico, que corta a noite da manhã, dois tomos iguais para que não haja mais continentes solitários dentro de mim. e essa certeza era tão notória como o chão era Beethoven, um puro reflexo do céu que se entornava, água, sobre a terra seca. Não, não era preciso mais caos. Tudo chegava para onde era preciso estar. E claro que havia música porque havia sede nos ouvidos, e é por isso que eles têm grutas, fundas, mais longe que o próprio ponto de interrogação do corpo. por ser verdade é que a música rasgou os passos. e por isso é que os meus pés ainda doem de nuvens altas.

Jardins para o fim dos tempos: a 3a Sinfonia de Brahms

Foi só há pouco tempo que percebi que o dia tinha chegado. Achei que não estava preparado. Escrever sobre a sinfonia onde comecei a ouvir música, a sinfonia que me disse que a música era um espelho e uma paisagem infinita em construção - só pensei fazer isto muito tarde na vida. Agora é agora. Claro que não estou preparado. E por isso, desde já: este texto é um fragmento. Mas chegou a altura de o escrever porque esta Sinfonia veio de novo ter comigo, quando eu já não a esperava. Como se a pudesse ouvir pela primeira vez. E isso é um privilégio raro.
Sei muito bem a primeira vez que ouvi a Terceira Sinfonia de Brahms: Carlo Maria Giulini em Lisboa, num Domingo à noite dos meus doze, treze anos. Aqueles planos de sons, como braços de cometas a rasgar o espaço - como se se inventasse a luz, pela primeira vez. Saí para a noite inteira, olhando para o Coliseu, o Rossio, a cidade pelos vidros do carro, como uma pergunta de respostas ramificadas em outras perguntas, em estrondos de novas reb…

Europe by train, VI: as três desgraças cosidas

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, XI