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qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, VIII

eu tinha a certeza de que tinha carimbado bem o papel: a mão direita sentira a pressão do genitivo sobre o nome. mas, claro, fica sempre a dúvida se o Latim ainda funciona. sobretudo quando deixei o meu numa mala de médico a caminho de Novosibirsk - penso que a esta hora já terá chegado ao limite das suas possibilidades.
estava eu nestas cogitações quando ela me pede o dito e referido e além-falado papel. estendi-lho, com a mão direita ainda duvidante.
- uhm. não sabe a tabuada?
- uma noite, duas manhãs, três cifras, quatro triângulos, cinco névoas, seis burgos, sete dragões
- chega. o impresso 17/27 e a carta de autorização de posse de angústia?
dei-lhe para as mãos quadradas e sujas de tinta. ela cheirava a pezinhos de coentrada.
- perfeito. e o imposto sobre o rendimento nostálgico?
Cena de "The Draughtsman's Contract", de Peter Greenaway
- pago.
Olhou então para o papel. Estaria mal carimbado, dir-me-ia.
- Está mal carimbado. Tem de voltar atrás.
Perdi a cabeça.
- De novo!?!! Eu não quero ir à Roma antiga outra vez.
Deu-me uma cotovelada tão grande que eu ainda hoje sei como conjugar mágoa em grego antigo - com as mãos a desfazerem memórias em água morta.

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