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Europe by train, V: as fugantes



Eram duas, os olhos claros, as mochilas enormes. Uma delas, a mais nova, falava um Flamengo abrupto, mais anguloso pela sua voz áspera e alta. Durante cinco minutos a voz flamenga conseguiu instalar a dúvida em cada um dos passageiros da carruagem. Não perguntava a ninguém directamente: apenas os olhos muito abertos, o nariz a acompanhar a questão. A outra estimava o facto dela se ocupar do caos, e limitava-se a concordar com a cabeça, às vezes com um quarto de “esta gente”. A coisa durou até que um senhor sentado dois lugares diante de mim lhes respondeu num elegante Flamengo que estariam provavelmente na carruagem errada. E claro que a asperosa decidiu não se mover, e ficou onde estava.
Começou um monólogo acidentado, 90% asperosa, 10% da outra; 95% pepineira, 5% interesse; 99% má-língua, 1% “nem por isso”; 100% desrespeito pelas 6h30 da manhã que eram, com gente mal dormida a caminho de outros lugares onde tinha ainda que frescamente trabalhar, caso em que me contava.
As ondas do sono entrechocavam com a cabriolagem do discurso arranhante, círculos no gelo gritante. Levantei-me duas ou três vezes para que percebessem que incomodavam todos com o linguajar devorante e desrespeitoso.
Nada.
A história delas era clara: tinham decidido fugir juntas, mas não uma com a outra. Aquelas semanas de férias no norte da Holanda simbolizavam sempre para elas uma fuga, em que a mais velha deixava de ser mãe e recém-avó, e a mais nova se tornava por uma vez interessante e social. Duraria pouco: quinze minutos depois, até a língua se cansava dela.

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