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19.700.000.000

E mais uma vez, perante a bonomia estival dos portugueses, um banco nos empobrece.

É certo que há - e haverá, espero - centenas de diferenças entre a novela BES e a tragicomédia BPN (da qual, aliás, há tantas notícias e desfechos como dos crimes de Jack the Ripper). Mas de novo o modelo de capitalismo financeirista faz cair uma pequena economia que ainda nem sequer começou a sair da crise. E se o quase fez, foi à custa de milhares de desempregados, de dezenas de milhares de pobres - e até, perguntava-se há dias um jornal inglês, à custa de quantas mortes?
Indirectamente, já, as consequências da ópera de sabão BES atingiram a bolsa e a economia portuguesa. Que contas secretas nos chegarão para pagar, não é claro (as do BPN ainda nem começaram).
Isto num ano em que o Governo assumiu as dívidas das empresas públicas: 19,7 mil milhões de euros (ver aqui). Esta dívida soma-se a muitas outras, gerida e gerada por políticos, por directores-gerais, Secretários de Estado, Ministros. Uns, tendo gerido empresas públicas, geraram buracos financeiros presentes ou passados, e receberam bónus por isso; outros saem do Governo para essas empresas. E o ciclo alimentar não pára. 
Recebem prémios e bónus pelos seus resultados, é um direito (muito discutível) que lhes assiste. O que pergunto é: e só têm direitos? Não têm deveres? Onde está o sistema de supervisão desta gente? Quem é este sistema, e será que existe? E não tendo cumprido os seus deveres - 19,7 mil milhões - porque não foram sequer julgados? O crime está à vista. Ou não me vão dizer que 19,7 mil milhões é o custo de manter o comboio de idosos em Vila Nova sem Esperança.
Se os políticos não são julgados, se não têm consciência dos seus deveres, cabe ao povo educá-los. 
Chegou o momento de os portugueses se levantarem e pedirem investigação e acções judiciais para apurar quem são os responsáveis por 19,7 mil milhões de vezes em que cada português foi desrespeitado. 19,7 mil milhões de sopas, 39,4 mil milhões de pães. Já nem é o custo da fome, é o preço da vergonha.

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