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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2014

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, X

- Pois se estava bem, podia ter-se mantido assim, não é verdade? O senhor e as suas loucuras de mudança. Algum dia isso lhe há-de correr mal, digo-lh'eu.
E claro, claro que ele tinha de terminar, bem lusitanamente:
- Olhe, quem o avisa, seu amigo é.
Voltei-lhe as asas e tive vontade de lhe desejar um feliz dia de nevoeiro. Mas ele continuava em cima do meu cérebro secundário, as quatro mãos a agitarem-se como se fosse um maestro de cinco orquestras, cada uma em seu continente, e quanto mais ele se mexesse mais se ouvisse melhor pelos oceanos fora. - Mas porque é que o senhor insiste na mudança?
Maestro, sim, mas de uma sinfonia de música pimba para reco-reco e canivetes suíços. - Não sabe que isso não lhe vai trazer felicidade nenhuma? E quem é o senhor para decidir que isso traz felicidade aos outros?
Eu ia-me afastando do quadro, mas ele continuava a borboletar à minha volta. A minha paciência verde-escura, feita de dores de ovos sem casca, estava a começar a falhar. São estas …

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, IX

uma espécie de tiro, mas de dentro para fora. um punhal de névoa, a puxar o caos, a espalhá-lo no chão, a estendê-lo pelo cosmos fora. o sabor a ossos partidos mas no coração. era assim sempre que chegavas, era assim sempre que partias. como um filme ao contrário onde só acontecesse fim nenhum. querias estar e ser tudo sendo nada. querias chegar e que tudo te esperasse, mas que nada te fosse pedido. um punho de punhais, uma floresta a arder para dentro alimentando-se de azul. um daqueles vazios cósmicos, a que damos o próprio coração; e enquanto o vazio o devora, diz-nos, "tens outro? este não chega". uma espécie de tiro: quando se dá pedras em vez do coração - e de repente, luminosa, devolvida a própria substância da liberdade.

19.700.000.000

E mais uma vez, perante a bonomia estival dos portugueses, um banco nos empobrece.

É certo que há - e haverá, espero - centenas de diferenças entre a novela BES e a tragicomédia BPN (da qual, aliás, há tantas notícias e desfechos como dos crimes de Jack the Ripper). Mas de novo o modelo de capitalismo financeirista faz cair uma pequena economia que ainda nem sequer começou a sair da crise. E se o quase fez, foi à custa de milhares de desempregados, de dezenas de milhares de pobres - e até, perguntava-se há dias um jornal inglês, à custa de quantas mortes? Indirectamente, já, as consequências da ópera de sabão BES atingiram a bolsa e a economia portuguesa. Que contas secretas nos chegarão para pagar, não é claro (as do BPN ainda nem começaram). Isto num ano em que o Governo assumiu as dívidas das empresas públicas: 19,7 mil milhões de euros (ver aqui). Esta dívida soma-se a muitas outras, gerida e gerada por políticos, por directores-gerais, Secretários de Estado, Ministros. Uns, tend…

to kill a mockingbird

Sobre o que aconteceu com o avião MH17 que caiu na auto-proclamada região da República Popular de Donetsk, no Este da Ucrânia, onde mais de 2/3 dos ocupantes eram Europeus, é tão simples como isto: 1. Ou tratou-se de um acidente. E se sim, como é possível que um míssil com alcance superior a 10000 m - alta tecnologia militar - possa estar nas mãos de rebeldes separatistas que há um ano nem existiam militarmente?
Se se tratou de um acidente, os responsáveis devem ser identificados e julgados.
2. Ou tratou-se de um acto militar efectuado pelos rebeldes pró-russos, com mísseis que lhes foram dados pela Rússia. Se esses mísseis foram dados, sem motorização, isso quer dizer que estamos em pura roda livre na Ucrânia. Quer dizer que, face a um ataque capaz dos ucranianos, com uso a aviões, os russos, não querendo atacar directamente, colocaram mísseis nas mãos de rebeldes. O que quer ainda dizer que, em caso de sucesso dos ucranianos, os russos dariam aos rebeldes armas nucleares? Putin per…

Crónicas de Berlinzâncio: Poemmerang

Londres, Fevereiro de 2012: no sprint final para terminar a minha tese, devassei, com a ajuda interminável e fabulosa da minha irmã Ana, os fundos da British Library. Foram três dias onde nevou Bruckner. No caminho de volta, no longo comboio até ao aeroporto, lembro-me de ter feito umas notas para um poema. Era um momento da minha vida em que me preparava para sair de Portugal para fazer um pós-doutoramento (achava eu, não fosse a vida levar-me para Berlim por outros caminhos). Lembro-me que nesse momento eu, que iria entrar na minha quarta vida (nesta vida actual, acrescento), revivia o que tinha sido deixar tudo da primeira para a segunda vida: quando, com 18 anos, deixei tudo para ir para o Seminário. E lembro-me que nessas notas para o tal poema me interessava encenar a despedida, este filme português treinado em 500 anos de partidas praias. Encenar o eu como um tu, o presente a ver-se no passado e a reviver-se; o que aprenderia eu com esta nova partida, como reflectiria ela a an…

Europe by train, V: as fugantes

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, VIII

eu tinha a certeza de que tinha carimbado bem o papel: a mão direita sentira a pressão do genitivo sobre o nome. mas, claro, fica sempre a dúvida se o Latim ainda funciona. sobretudo quando deixei o meu numa mala de médico a caminho de Novosibirsk - penso que a esta hora já terá chegado ao limite das suas possibilidades. estava eu nestas cogitações quando ela me pede o dito e referido e além-falado papel. estendi-lho, com a mão direita ainda duvidante. - uhm. não sabe a tabuada? - uma noite, duas manhãs, três cifras, quatro triângulos, cinco névoas, seis burgos, sete dragões - chega. o impresso 17/27 e a carta de autorização de posse de angústia? dei-lhe para as mãos quadradas e sujas de tinta. ela cheirava a pezinhos de coentrada. - perfeito. e o imposto sobre o rendimento nostálgico? - pago. Olhou então para o papel. Estaria mal carimbado, dir-me-ia. - Está mal carimbado. Tem de voltar atrás. Perdi a cabeça.
- De novo!?!! Eu não quero ir à Roma antiga outra vez.
Deu-me uma cotovel…

Postais enviados por uma personagem, III

"Caro Senhor Sena-Lino,
Fui informado que pretende narrar-me. Como sabe, não vale de nada agradecer-lhe ou convencê-lo a mudar de ideia. O Universo é uma narrativa, andam as estrelas penduradas nisso. Portanto, corte onde tiver de haver estradas. Só lhe peço que não se meta onde não deve, que é aquela fronteira que só os cirurgiões conhecem, que é abrir as feridas para que cheguem aos pulmões da alma. Grato, C.I."

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, VII

as mesas para o vôo estavam ainda cheias de vinhos entornados da noite anterior. cheiravam à madeira e ao ácido das lendas persistentes. Schubert chovia dentro dos vidros como uma espécie de sinfonia patética. José Régio andava por todos o lado mas sem crucifixos nem culpa, isto é, apenas vento e a sua fome de asas. Já não havia mesas para o vôo. Foi por isso que me sentei numa paisagem que ainda não fora fotografada, os dias sabiam ao seu contrário, e as pessoas na sala de espera pareciam notar, porque disparavam a colocar para a frente o seu relógio de angústias. "Quando fôr tempo, entrem no avião", dizia a funcionária da Parca Airlines, com um crachá "Vota Platão" no pensamento esquerdo.