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Sem 100 Nunca: Concertos para Piano de Mozart e Schumann por Dinu Lipatti

Se eu soubesse escrever à altura deste disco, inventaria toda uma literatura.
No dia em que nada sobrar da Humanidade, e este disco fôr ouvido por ETs, muito do melhor do conhecimento e da beleza acumulados durante milhares de anos pela Humanidade terá perdurado - e então, a exploração do homem pelo homem, Auschwitz e Hiroshima serão lavadas por esta água multidimensional, por esta magia de esferas capaz de desabitar os pecados do mundo; capaz de reabitar o mundo e de o desorbitar.
Nunca duvidei que quem ouvisse este Concerto de Mozart por Lipatti tornar-se-ia uma pessoa melhor. Séculos de educação, de religião, de teoria, valem menos que esta cristalinidade. Isto, se hoje ainda soubessemos o que é ouvir - porque já praticamente ninguém se deixa ser educado pelo silêncio e pelo nada.
E, todavia, tudo o que aqui acabo de escrever está bem para além deste disco.

A história é pouca - maior nos seus efeitos que nas suas raízes, como sucede sempre com os eventos cadentes: o jovem e ascendente pianista romeno Dinu Lipatti (1917-1950) foi tocar ao Festival de Lucerna em 1950. Sabia já da doença de Hodgkin que lhe comia o sangue, depois de uma vida a driblar várias espécies de morte - entre as quais, a inveja, que lhe roubou um prémio merecidíssimo. Achei sempre notável que Lipatti fosse baptizado tarde (com o compositor Enescu como padrinho) e tocasse uma peça de Mozart no seu próprio baptizado, assim tendo Mozart e Enescu a abrir-lhe o céu.
Pois em Lucerna, com um também relativamente novo maestro, Karajan, este tão diferente de Lipatti quando a posicionamentos nazis, e que o acompanha orquestralmente como poucas vezes na história do mundo um solista foi acompanhado. E eu, que colecciono razões para não gostar de Karajan como músico e ser humano, não posso admirar mais a música de vitrais que tirou da orquestra. Quer para o Mozart, quer para o Concerto de Schumann que o acompanha no CD. Como diz o sábio musical André Tubeuf, Karajan só foi grande quando estava a tornar-se Karajan, e não quando o era. Pois se alguma vez foi grande, foi neste disco.
O Concerto de Schumann foi gravado nos bons estúdios de Abbey Road em Londres; devemos a Walter Legge ter fechado Lipatti uns dias no estúdio, deixando-nos estas pérolas.

1. Porque não passo sem
A prosa acima já valeria, creio eu. Mas este Mozart ar e água, onde as sombras prenunciam Chopin, faz cumprir a frase de Einstein (o outro) sobre Mozart, que não me larga desde os quinze anos: "Em Mozart, o que é leve, plana; e o que é pesado tem o peso do infinito".
É impressionante o minuto 7 inteiro, em que Lipatti faz de Mozart uma música fora do espaço e do tempo, corrente e moderna, relâmpago e onda. Ou ainda mais a cadenza, em que Lipatti não coloca uma nota que não seja do piano de Mozart que ele tocou com a orquestra antes, e reconfigura com isso todo o concerto, quase como fazendo uma narrativa inversa, dentro da narrativa. Completamente modernista e avassalador. Ouvi esta gravação decerto mil vezes - e o sangue gela cada vez que esta geometria corre.
O Schumann tem outras qualidades: encantamento, suavidade, um romantismo de interioridade, e uma tormentosa alegria de viver no 3º andamento.

2. Porquê este entre tantos?
Porque eu acredito que Mozart ressuscitou em Lipatti - e por isso, como ele, morreu aos 30 - aos 33 como Cristo.
Porque este 21 por Lipatti é a essência de Mozart, é poesia pura.

3. Versões alternativas
Para o 21 de Mozart: Zacharias (EMI ou MDG Gold), Bilson/ Gardiner (Archiv), ou a pianista preferida de Lipatti, Clara Haskil.
Para o Schumann: o oposto nebuloso e marmóreo: Michelangeli/ Celibidache (Weitblick), ou os interessantes Rösel/ Masur (Berlin) ou Myra Hess (great pianists) ou Martha Argerich (EMI).

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