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Sem 100 Nunca: As 4 Sinfonias de Schumann por George Szell

Era só a segunda parte de um concerto qualquer na Gulbenkian; o que interessava era a primeira parte e quem tocava o Concerto para Piano de Schumann. Eu tinha dezassete anos e achava na altura que a música estava toda concentrada e resumida de Mozart a Bruckner, e o resto eram só ensaios ou variações. 
Só sei que o "Adagio Espressivo" ficou a arder-me por tantos dias no coração ainda cego, que gastei o meu primeiro tostão como tradutor neste mesmo disco. Se não me engano, o terceiro disco que comprei para mim em toda a minha vida. E nunca mais nos largámos. Quando me mudei para Berlim, mesmo sem aparelhagem de CDs, o disco veio comigo, como a 5a de Tchaikovsky por Sinopoli, a 9a de Beethoven por Furwtängler ou todo o Lipatti (sobre o qual falarei depois). São uma espécie de chão que me ajuda a pisar o chão.

1. Porque não passo sem
Schumann é um dos maiores segredos da música clássica (mais gente o acha, como o luminoso Daniel Harding aqui refere). Tudo fica no Concerto para Piano, nas "Kinderszenen" e quanto muito no Quinteto. Alguns mais sortudos na Abertura de "Manfred". Tudo o resto se empilha num agradável esquecimento, tão respeitoso como estúpido. 
As Sinfonias estão entre Beethoven e Bruckner, e fazem de Schumann ainda mais um valor e um segredo pelo seu lado experimental. Mas sobretudo têm uma infinidade de estados de espírito, profundos e nítidos. Não se sai destas peças esmagado como de Bruckner ou Mahler, é certo: mas alerta, devastadamente alerta, pela precisão como a tristeza, o desejo, o pavor ou a alegria são decantadas e estudadas em música.
A 2a Sinfonia parece dialogar comigo em cada dimensão: orquestral, já que cada instrumento tem um solo ou um papel preponderante; a grandeza épica e sofrida do 1º andamento; a rapidez alegre do Scherzo, que associo tanto à própria Primavera; o Adagio, onde a minha sensibilidade chorava de si mesma; o último andamento, um resumo genial dos complexos estados de espírito que a Sinfonia percorreu. E a biografia de Schumann (que vale o que vale hoje) conta como o compositor a escreveu depois de uma crise depressiva profunda - se preciso fosse que a realidade confirmasse o que a Sinfonia opera.
E a 4a, uma espécie de bailado para luz e pavor, furiosa e tremente. Sei que parecerei teórico, mas desde sempre achei esta Sinfonia uma espécie de pergunta sobre as possibilidades do Romantismo.
A 3a é um hino ao Reno, uma viagem também etnológica por música, e música de cena para o percurso de um rio. A 1a, a que chamaram "Primavera", um brilhante jogo para orquestra e criação de imagens.

2. Porquê este entre tantos
Szell reorquestrou algumas partes, é certo: mas o equilíbrio da interpretação é assombroso, entre lirismo e precisão. O som da Orquestra de Cleveland chega a doer de nitidez, e Szell desenha uma arquitectura global destas obras.
Para além do respeito absoluto da partitura, Szell ousa velocidades e sublinhados rasgados que são puras viagens.

Versões alternativas
A 4a de Schumann tem apenas um nome: Wilhelm Furwtängler. A 2a tem na rapidez de Toscanini uma surpresa fulgurante. A 3a é absolutamente divisível entre Guilini e Toscanini. E quando o brilhante Daniel Harding tiver tempo, correi a buscar a sua versão: os concertos gravados que se encontram na internet deixariam Schumann e Szell felizes a dançar numa discoteca celeste.

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