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Crónicas de Berlinzâncio: Zina Mazina

Ela era o meu primeiro sol da manhã. Quando me levantava, à alemã, às 7h30, para trabalhar pela manhã fora, descia meio quarteirão da minha Oldenburger Strasse, e sabia que à esquina, entre a Igreja e uma alameda de árvores altas e memorativas, ficava o Café da Zina. Ela, nas suas formas de leiteira bávara, sorria-me nos lábios pintados de castanho, atirando ao chão os olhos azuis escuros e falsamente pudicícios. A saia de pele castanha, justa às suas formas centro-alemãs, era todo um statement Amazónico. Ao quarto dia, ela já sabia que eu queria um expresso ristretto, e, com aquela delicadeza bruta das mulheres que cresceram nos campos verdes, cresceram a cerveja em vez de leite, e conheceram o amor entre o calor das vacas com o Hans filho do sapateiro, Zina servia-me o café como uma bebida mágica, e um novo sorriso escondido pelo baton e por imaginações torradas, Arábicas e Robustas.
Ao quinto dia, fui-me apercebendo de que o Café da Zina era possuidor de um conjunto simpático de fichas de electricidade na parede. E tendo a companhia daquela ninfa, a vista da Igreja, o néctar do seu café, um romance de olhos e meios sorrisos, tão bom quanto impossível, pensei ter encontrado a minha Ilha dos Amores - entre mim e o meu computador esclerosado sem bateria.
Na 3a de manhã, confiante e alegre, pedi o café e fui, sem perguntar nada, ligar o computador à ficha. Ninguém me disse nada. Quando chego ao balcão, lá está o néctar tirado pela Zina de Áfricas vaporosas e intensas. Sei que não assisti ao sacrifício de grãos de café e de vapores, que ela já coreografava com meios sorrisos e olhares tímidos; talvez tenha sido por isso. Sei também que não perguntei. Mas a Zina, assim que me viu, com um sorriso mais elástico, disse-me:
«The plugs are not for people to use».
Ah, pensei, era mesmo uma deusa! Eram ninfas, fadas, duendes, que usariam aquelas fichas? Já que não eram para pessoas usarem? Depois comecei a ficar irritado. Para que é que ela queria ali as fichas? De repente, a saia de pele ou napa parece-me pirosa, a maquilhagem excessiva e a tapar provavelmente pústulas, e a coreografia do café apenas um jogo para atrair poetas portugueses a esta enxovia de enganos. Já não sei bem quem é a vaca, e imagino que o Hans talvez tivesse sido um instrumento de tortura. Com um sorriso amarelo, disse para os meus botões:
«Acabaste de perder um cliente, Zina MáZina.»

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