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Crónicas de Berlinzâncio: recalorar

Estão trinta graus e Berlim parece subitamente Alentejana. Uma moleza que faz procurar árvores. Um calor seco, afadigadamente seco.
E a cidade fica subitamente nua. Paredes que eram antes defesas robustas contra o Inverno são agora janelas. As minhas vizinhas, tapadas como fanáticas religiosas, têm pernas daqui até Wagner; e até os corvos, sentimentais de Invernos nunca absolutos, parecem pardais de alta-costura, desnudados de alma, e de preto porque nem a voar me comprometo.
E depois as avenidas, que todas elas parecem namorar lagos, mesmo invisíveis. E depois as redes, a relva, as margens que atiram sobre outras margens. Tudo parece ser um bosque de água sobre a água de um bosque que é mais do que sede, é agora.
Capital do Inverno, loucura de Verão. Por três dias, até que as trovoadas venham e descalorem. Mas sempre água que aprofunda a sede. 

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