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A pré-Revolução europeia

Na véspera das eleições para o Parlamento Europeu, devido a um link que uma amiga postou no Facebook (este), passei o dia a pensar que o mundo ia acabar daqui a 30 anos. Mas sobretudo devastando-me como era possível - mas realmente como - termos governos, e associações internacionais, e tratados, e nações unidas, e nada nem ninguém conseguir parar a estranha máquina do mundo que se consome a si mesma sem necessidade nem sentido. Na perfeita estupidez de um dólar ou de um yen a mais, para quê, se esquecemos que o chão que temos pode desaparecer, e tudo valerá nada. Depois de um dia perdido no cosmos, descubro uma série de outros artigos que enquadram o tal vídeo, e o relativizam, entre os quais este.


Não havia, porém, melhor enquadramento ao que se ia passar na minha terra, de chão de alma e de espírito, no dia seguinte, no dia das eleições. Quando falo em terra, falo na Europa, porque me sinto europeu antes de outra coisa qualquer - e o facto de viver fora do país em que nasci mais o reforçam.
Não, não vou aqui falar das eleições para o Parlamento Europeu, e do que significaram ou deixaram de significar. Vou apenas deixar três linhas, que se vão formando por baixo do chão que nos falta. Porque a história da cultura é sobretudo isso: ver como o mundo é construído por tão subterrâneas linhas que se mantém durante séculos, até cumprirem o seu potencial de mudança.

1. Os europeus estão contra esta Europa.
E não apenas contra este modelo de União Europeia, ou este modelo institucional de Parlamento e Comissão. Estão contra esta europa neo-liberal que se foi construindo desde Maastricht num denominador mínimo comum que acabou por tornar-se a nossa prisão, em políticas de austeridade contra os princípios do estado social.
Foi contra isso que votaram, mais do que nos eurocépticos ou na extrema direita. E votaram contra o jantar de compinchas na terça-feira passada, em que os chefes de estado e de governo da UE se divertiram a ignorar a votação do Domingo anterior, decidindo entre si a quem dar os cargos mais importantes da UE.

2. Os europeus estão mais a favor da Europa do que nunca.
E se têm dúvidas, façam um refendo. Simples como isto: "Está a favor da dissolução da UE?", fácil primeira pergunta. Os fantasmas seriam todos facilmente arrumados e enviados para os seus respectivos lugares. Mas não. Ninguém tem a coragem de o fazer. Porque é neste jogo de dúvidas e suspensões que a UE é gerida: uma entidade subserviente de governos e a fazer o jogo dos bancos e dos EUA.
Pergunte-se pois se se quer uma Europa que resolva os seus problemas comuns e globais no seu Parlamento; se se quer uma Europa com um estado social forte; se se quer uma Europa de livre circulação; uma Europa que recebe os seus cidadãos como iguais, com regras claras e iguais para todos. Uma Europa que não quer continuar a ensinar ao mundo como se comportar, mas que se baseia numa carta de princípios claros.

3. Queremos mais Europa, menos Governos.
Não é uma Constituição, senhores. Não é mais um Tratado ilegível e complicado. Não é mais um jantar de cortesãos. Não é nada disto: é uma Carta de Princípios, é uma reforma clara, radical e profunda. Cinco princípios? Não são capazes?

Estas eleições foram um aviso. Esta deslei europeia não nos serve. Este ser não sendo que a UE é hoje, também não.  As cruzinhas que pusemos nos seus boletins diziam todas: À merda não com a UE, mas com a UE que nos obrigam a ter
Daqui a uns anos, estas eleições terão um nome: a pré-Revolução europeia. O que se vai seguir: um movimento popular europeu, sem precedentes, para além da esquerda e da direita, a pedir uma verdadeira UE. Isso é o que veremos nos próximos quatro anos. E os cortesãos fechados na sua Versailles bruxelense vão um dia acordar, rodeados e apeados, reduzidos ao seu poder fantocheiro.

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