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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2014

Crónicas de Berlinzâncio: Zina Mazina

Ela era o meu primeiro sol da manhã. Quando me levantava, à alemã, às 7h30, para trabalhar pela manhã fora, descia meio quarteirão da minha Oldenburger Strasse, e sabia que à esquina, entre a Igreja e uma alameda de árvores altas e memorativas, ficava o Café da Zina. Ela, nas suas formas de leiteira bávara, sorria-me nos lábios pintados de castanho, atirando ao chão os olhos azuis escuros e falsamente pudicícios. A saia de pele castanha, justa às suas formas centro-alemãs, era todo um statement Amazónico. Ao quarto dia, ela já sabia que eu queria um expresso ristretto, e, com aquela delicadeza bruta das mulheres que cresceram nos campos verdes, cresceram a cerveja em vez de leite, e conheceram o amor entre o calor das vacas com o Hans filho do sapateiro, Zina servia-me o café como uma bebida mágica, e um novo sorriso escondido pelo baton e por imaginações torradas, Arábicas e Robustas.
Ao quinto dia, fui-me apercebendo de que o Café da Zina era possuidor de um conjunto s…

Sem 100 Nunca: Concertos para Piano de Mozart e Schumann por Dinu Lipatti

Se eu soubesse escrever à altura deste disco, inventaria toda uma literatura.
No dia em que nada sobrar da Humanidade, e este disco fôr ouvido por ETs, muito do melhor do conhecimento e da beleza acumulados durante milhares de anos pela Humanidade terá perdurado - e então, a exploração do homem pelo homem, Auschwitz e Hiroshima serão lavadas por esta água multidimensional, por esta magia de esferas capaz de desabitar os pecados do mundo; capaz de reabitar o mundo e de o desorbitar. Nunca duvidei que quem ouvisse este Concerto de Mozart por Lipatti tornar-se-ia uma pessoa melhor. Séculos de educação, de religião, de teoria, valem menos que esta cristalinidade. Isto, se hoje ainda soubessemos o que é ouvir - porque já praticamente ninguém se deixa ser educado pelo silêncio e pelo nada. E, todavia, tudo o que aqui acabo de escrever está bem para além deste disco.
A história é pouca - maior nos seus efeitos que nas suas raízes, como sucede sempre com os eventos cadentes: o jovem e ascend…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, VI

isso, a que alguns chamavam comportamento, era apenas uma espécie de fome, uma árvore que rebentava no estômago da noite sempre que tu chegavas. Sehnsucht podia ser uma forma de a qualificar, não fosse tão dimensional aquática, tão anoiterada, circuito de névoa no corredor dos pulsos. não: para que venhas é preciso mudar toda a estrutura de sentir. até reprovocar essa chuva metálica que por vezes substitui os olhos, e que começa a gritar escadas quando estás a chegar.  deito-me na memória do rio. desligo os nomes. o que parecia comportamento era de facto fome - e com este mantra sossego o meu super-ego. o rio vai descendo da memória para o esquecimento e não há nenhum lugar para além de nós.

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, V

Podia morder-se o ar que nos separava. Não era de hoje, claramente pelo calor que provocava. Era uma coisa que era tão absolutamente passado que só poderia ser para outra vida. Num dia, um dia apenas, em que a cidade pudesse deitar-se em cima dos teus ombros, e tu sem história rigorosamente nenhuma pudesses querer reinventar a tua criação desde o início. Papiro, rio novo, uma literatura inteira de um país desconhecido - assim essa essência a que alguns chamavam corpo, mas que para nós era apenas fome. Porém, porém, porém, não foi nada disso que deixámos que o tempo nos fizesse. Fomos nós ao Tempo buscar a sede que lhe fazia falta. E de repente era só eu dentro de um quadro, com duas mãos de metal como escadas, e um poema de guerra a decantar-me os membros. E para que eu pudesse ser o que ainda faltava à falta, tive de continuar sozinho a sinfonia das cidades ainda por ser, essa coisa tão visceralmente simples que se chama atravessar.

Crónicas de Berlinzâncio: a água ultra-consciente

Há um texto de Natércia Freire ("A Água e a Alma", in O Eixo de Ouro, livro ainda inédito), que me persegue sempre que vejo um quadro de Friedrich (como o da esquerda, "Auf dem Spuren"), ou quando estou diante de uma estranha água.  O texto vem de seguida. Mas o que quero dizer é que também Natércia escreveu um absoluto poema ("Água de Alma"), em que a água parada das lezírias do Ribatejo parece falar com os lagos suspensos, quase pantanosos, da zona de Brandenburgo. O poema, mas sobretudo o texto que se segue falam-me dessa água parada que me parece a definição daquele tempo áspero em que nada parece líquido, em que nada parece mover-se, em que o sentido é apenas saber que tudo vai correr - mesmo que as águas não o façam. Mesmo que a essência pareça estática. Mas também me pergunto, com A Água e os Sonhos de Bachelard na minha cabeça, porque será a poesia esta espécie de água ultra-consciente.
"A água do Mar dará ao homem a inquietação do infinito…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, IV

Se puderes desligar a água, agradeço. O botão fica por cima da cabeça, no segundo andar atrás dos olhos. Arde um pouco quando se pressiona para fora. Tem um jeitinho, sim, tens de puxar como se respirasses, contar até três, e voltar para a direita, onde o coração falha. Depois desta operação começam as paisagens. Volta à esquerda quando a montanha subir, e assim que oiças o vento Zussnyander, tira uma memória do bolso direito e trinca-a apenas com o maxilar esquerdo. Sentirás no céu da boca uma espécie de nuvem parecida com o Apocalipse - mas é apenas a confirmação de que estás no sítio certo. Quando ouvires então a tua infância dançar, compra-lhe uma carruagem de névoa e senta-te no teu nascimento a ouvir o Adagio Espressivo da 2a Sinfonia de Schumann a voar. Terás então a certeza de que desligaste o céu por um momento, e a Terra en tão poderá passar.

Sem 100 Nunca: As 4 Sinfonias de Schumann por George Szell

Era só a segunda parte de um concerto qualquer na Gulbenkian; o que interessava era a primeira parte e quem tocava o Concerto para Piano de Schumann. Eu tinha dezassete anos e achava na altura que a música estava toda concentrada e resumida de Mozart a Bruckner, e o resto eram só ensaios ou variações.  Só sei que o "Adagio Espressivo" ficou a arder-me por tantos dias no coração ainda cego, que gastei o meu primeiro tostão como tradutor neste mesmo disco. Se não me engano, o terceiro disco que comprei para mim em toda a minha vida. E nunca mais nos largámos. Quando me mudei para Berlim, mesmo sem aparelhagem de CDs, o disco veio comigo, como a 5a de Tchaikovsky por Sinopoli, a 9a de Beethoven por Furwtängler ou todo o Lipatti (sobre o qual falarei depois). São uma espécie de chão que me ajuda a pisar o chão.
1. Porque não passo sem Schumann é um dos maiores segredos da música clássica (mais gente o acha, como o luminoso Daniel Harding aqui refere). Tudo fica no Concerto para…

Crónicas de Berlinzâncio: recalorar

Estão trinta graus e Berlim parece subitamente Alentejana. Uma moleza que faz procurar árvores. Um calor seco, afadigadamente seco.
E a cidade fica subitamente nua. Paredes que eram antes defesas robustas contra o Inverno são agora janelas. As minhas vizinhas, tapadas como fanáticas religiosas, têm pernas daqui até Wagner; e até os corvos, sentimentais de Invernos nunca absolutos, parecem pardais de alta-costura, desnudados de alma, e de preto porque nem a voar me comprometo.
E depois as avenidas, que todas elas parecem namorar lagos, mesmo invisíveis. E depois as redes, a relva, as margens que atiram sobre outras margens. Tudo parece ser um bosque de água sobre a água de um bosque que é mais do que sede, é agora.
Capital do Inverno, loucura de Verão. Por três dias, até que as trovoadas venham e descalorem. Mas sempre água que aprofunda a sede.

A pré-Revolução europeia

Na véspera das eleições para o Parlamento Europeu, devido a um link que uma amiga postou no Facebook (este), passei o dia a pensar que o mundo ia acabar daqui a 30 anos. Mas sobretudo devastando-me como era possível - mas realmente como - termos governos, e associações internacionais, e tratados, e nações unidas, e nada nem ninguém conseguir parar a estranha máquina do mundo que se consome a si mesma sem necessidade nem sentido. Na perfeita estupidez de um dólar ou de um yen a mais, para quê, se esquecemos que o chão que temos pode desaparecer, e tudo valerá nada. Depois de um dia perdido no cosmos, descubro uma série de outros artigos que enquadram o tal vídeo, e o relativizam, entre os quais este.

Não havia, porém, melhor enquadramento ao que se ia passar na minha terra, de chão de alma e de espírito, no dia seguinte, no dia das eleições. Quando falo em terra, falo na Europa, porque me sinto europeu antes de outra coisa qualquer - e o facto de viver fora do país em que nasci mais o …