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qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, III

Eu estava perdido na cidade velha, era um facto. Nevava uma espécie de sol quadrado, o trânsito de pássaros de fogo era especialmente intenso, e eu tinha comido umas declinações alemãs que me tinham caído particularmente mal. Andava a trincar versos de Goethe, o que toda a gente sabe que faz bem ao equilíbrio do ecossistema, mas bastante mal aos pequenos cérebros do estômago: florescem longos e altos.
Pronto, mas era oficial: estava perdido. Abri o mapa, mas não consegui encontrar rigorosamente o nome da rua, o rio, a torre ao contrário que o mapa teimava em apontar como o centro da cidade. Resolvi por isso sentar-me entre os pingos de chuva num banco de um jardim. Um daqueles governados por corvos altos onde se deve pagar a entrada com um pesadelo de 2 kgs. Abri a mala. Já não tinha nenhum (isto de os andar a trocar por frases para o novo livro ainda vai dar cabo da minha vida sexual comigo, pensei). Claro que um corvo devidamente certificado se aproximou.
- Não pode entrar aqui sem pagar a entrada, já sabe.
Tentei sorrir, mas a minha cara não estava bem na minha cara, mas com uns segundos de atraso.
- Desculpe. Mas então pode ajudar-me? Pode dizer-me onde estou?
- Claro. Está no mapa.
Olhei para ele. O sol quadrado fazia-lhe o bico mais cor-de-rosa, quase Paul Klee de feira.
- No mapa?
- Sim. O senhor está dentro do mapa. Ora não vê?
Só sei que quando apontou com a asa esquerda para o mapa, senti que os meus ossos se plasmavam em papel que um outro ser, bem parecido comigo, carregava nas mãos suadas perdido numa cidade velha.

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