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qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, II

Não pensava que aquela porta se abria daquela maneira. 
Eu pus apenas a mão direita em cima da maçaneta, achei que era apenas um golpe de mão, a entrada para outra divisão. Não pensava que era a divisão mesma num golpe de pulsos. Entrei e lá estava, sentada vogante na minha condição passada feita futuro agora: a minha morte velha.
- Pensei que te tinha morto.
Pôs o cigarro ao canto da boca, enquanto lavava o braço inteiro numa bacia cega, onde globos oculares superficiavam com pétalas mortas.
- Nós não morremos, gajinho. Nós só somos substituídas. Fintas uma, vem logo outra. Funcionamos melhor que os pacotes de apoio da UE.
Fiquei sem saber se deveria sentar-me, ficar de pé, ou colar-me à janela. Toda a vida a pensar como seria quando a morte me encontrasse, e agora era eu a encontrá-la. Décadas de etiqueta servem muito pouco quando somos embalados na loja das surpresas.
- Senta-te aí que eu já te tiro isso. Olha, e serve-te.
Rejeitei com um gesto provar os olhos, estranhamente azulados e com um cheiro a ovos moles.
- Tu é que sabes. Vocês humanos ainda não perceberam que os olhos não funcionam para fora, só para dentro.
Ela acabou de limpar o braço e aproximou-se. Os pés eram mais cavos que o chão.
Pegou na Divina Comédia em forma de alicate, a mão esquerda a 5. de Bruckner, e de um golpe, arrancou a minha morte nova.
- E não me voltas a trair, ouviste? - disse-me, dando-me um pontapé na memória que ainda hoje me dói quando ando de bicicleta.


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