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qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, I



Ela disse que chegava às duas da tarde e chegou precisamente às duas e vinte e um. Eu perguntei porque chegou atrasada, e ela apenas sorriu. Caíam uma espécie de restos de flores das árvores, coisas-entre folhas, plantas e outono em plena Primavera, que pareciam mísseis telecomandados que me comiam o nariz. Vinte minutos de espera e espirros. E ela a chegar, sorridente e pintada, de quem pintou as unhas dos pés, lavou partes do corpo esquecidas desde o nascimento, jogou computador e endireitou a Torre de Pisa - tudo calmamente, enquanto eu esperava.
- Ouve lá - disse eu, tentando controlar os adjectivos, e alguns verbos, mas só tenho duas mãos - não achas que vinte e um minutos é tempo demais? Sem avisar? Mais cinco minutos e eu ia-me embora.
Pintura borrada. Torre de Pisa torta de novo.
- Ai que chato. Que falta de paciência. Assim as pessoas não se querem encontrar contigo.
A catapulta portuguesa: culpa para cá, culpa para lá. Cortei as vasas.
- Peço desculpa. Não uso relógio mas talvez me esteja a tornar suíço.
Andámos pelo parque. As árvores entornavam-se, velhinhas pareciam ter esquecido de olear o seu trólei, e a polícia andava a multar ciclistas sem motivo. O dia perfeito em que se sente o tal "cansaço de Primavera" de que os Alemães falam quando se dobra Abril, e Abril nos dobra, talvez seguindo Eliot do "mês mais cruel".
Quando chegámos ao seu poiso, ela subiu para a cadeira, depois para o telhado. E endireitando as asas com as suas patas de leão, perguntou-me:
- Que tempo tens tu para o tempo passar?

Eu não sabia a resposta. Tentei carregar no botão "acordar", mas o meu casaco de circuitos de mágoa estava desligado desde que fiz 36 anos a subir para Potsdam. Pensei em tragédias gregas, mas os meus olhos já se preparavam para o golpe final. Pensei que a última coisa que gostaria de ver era a música de Bruckner a levantar-se e a formar estranhos pássaros da sua sede. Senti as palavras nos pés, o pensamento no estômago, as asas no coração. Mas então ela interrompeu-me, enquanto o Sol se tornava duplo e caía em formas barulhadas no lago.
- Já não tens tempo. Fica para a próxima.

E qualquer coisa da Criação nasceu de novo em mim.

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