Avançar para o conteúdo principal

não quero um futuro retrocedido, I: as raparigas da Nigéria

Às vezes penso como a Humanidade retrocedeu. E como a tecnologia nos é vendida como circo para os romanos: distraiam-se com os gadgets, que todos podem ter, para não verem a realidade. Isto quando temos menos direitos como cidadãos ocidentais a cada dia que passa; isto quando o primado da igualdade e dos direitos humanos se perde a cada dia que passa.
E retrocedeu mesmo, se colocarmos a Revolução Francesa como referente, esse terramoto civilizacional com todos os seus ideais a concretizarem-se, com o peso do sangue e da mudança a tornar as ideias reais.
Perdemos direitos como cidadãos numa crise inventada na América com o beneplácito da China e muito acarinhada na City de Londres, que se destinou (também) a salvar os bancos alemães e franceses.  Porque temos uma moeda comum que devia significar o mesmo chão, o mesmo objectivo, o mesmo ideal. Uma moeda significa valor comum, não desvalor colonial. Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Chipre, Itália: o Sul a ser colonizado pelo norte, em nome do mesmo bem comum, do mesmo progresso que nos fez a nós portugueses devastar culturas mais antigas que a nossa em África e na América do Sul. Cada ano de colonização portuguesa dói-me na minha condição, como a maior vergonha que pudémos construir - e que graças ao sentido de justiça boomerânico do Universo, pagamos agora com juros.

Para além de tudo isto, que é material para um levantamento total na Europa, mais fundo e radical do que uma revolução, estão os casos vergonhosos da Ucrânia e da Nigéria. Tudo o que são os valores em que o Ocidente se funda estão perdidos nestes dois casos. Na Ucrânia, como é possível aceitar que um país faça uma guerra total a outro para o desmembrar, com a passividade total do Ocidente? A guerra é total, muito pior e muito mais funda do que uma invasão e ocupação militar: panfletos, agitadores, referendos falsos, ocupações - tudo regado a gasolina com retórica da URSS misturada com nacionalismo neo-czarista. Deixamos que inspectores da OSCE sejam presos e usados como títeres. Deixamos cidadãos que querem viver sobre o primado da lei, e que lutam por isso com as suas vidas, desaparecer sob o jugo radicalmente anti-democrático de Putin. Que vergonha, que vergonha em ser Europeu.
Pior, na Nigéria. Como é possível deixar que raparigas sejam raptadas e vendidas como escravas? Apenas porque querem estudar? Haverá símbolo mais violento e assassino do que tentámos conquistar nos últimos 100-150 anos?
As Nações Unidas devem enviar uma força para a Nigéria. Imediatamente. Já.
As fronteiras do mundo estão na Nigéria e na Ucrânia. É lá que deve reinventar-se a Revolução Francesa.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…