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Festival de Poesia do Mediterrâneo: a palavra desprisão

Começa assim um dos poemas de Clepsydra, de Camilo Pessanha (publ. post. 1920):
«Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das flores de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos.
Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aquário.
- Campo florido das Saudades,
Porque rebentas tumultuário?»


Não sei quantas portas atravessámos, quantas vezes o nosso nome dissémos, quantas identificações tivemos de mostrar e validar. Éramos de uma estranha condição. Portadores de algo que não pode estar preso - uma voz. E ao atravessarmos corredores e corredores, átrios e portas, demos num auditório, onde olhos pesados e descontemplados nos aguardavam. 
Íamos ler para os presos. Em todas as línguas do mar exterior que os circulava,  naquela ilha da ilha sem saída onde estavam. E mesmo em línguas que desconheciam, eu não vi nunca um público mais ávido, mais celebrante, mais livre.
Antes das ideias, antes das religiões, antes até de si mesmo, a metáfora salva. É um transporte, o transporte, com que um ser pode atravessar os grandes desertos de si mesmo.

Mas lembro: como um poema de amor alastrou o Campo das Saudades; como Roger Pelláez fez quebrar os muros mentais da prisão com o seu rap-rock poético; como as infâncias esmagadas regressaram por momentos, "rebentando tumultuário", ao som da glosa de Xurí. 
Mas mais, e inesperadamente mais: como entre a desumanidade dos actos, a desumanidade de uma prisão (não daquela em particular, mas da sua essência), e os "não-presos", a liberdade se tornou tão clara: não tem a ver com muros, mas combate-os; é radical e interior, e alimenta-se da substância das palavras.

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