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100 Sem Nunca: Vier Letzte Lieder

Começo hoje uma nova rubrica no blogue: "100 Sem Nunca". Quero dizer: 100 CDs sem os quais nunca seria capaz de viver.
Sublinho que não estou a falar de obras, mas de gravações em si. Tentarei ser curto e directo, e explicar como e porquê estes discos são essenciais para um correcto funcionamento do (meu) organismo. Aliás, creio mesmo que um dia se descobrirá como muito do equilíbrio do universo deles depende.

Richard Strauss: Vier Letze Lieder (Quatro Últimas Canções)
Elisabeth Schwarzkopf, Radio-Symphony Orchestra Berlin, George Szell (1966)
EMI Classics

1. Porque não passo sem
Não gosto de Ópera; tenho problemas em ouvir sopranadas.
Mas assim que caí nesta obra, há precisamente dez anos atrás, no fim de vida de uma pessoa que amei muito, fiquei a dever-lhe a compreensão do Inverno.


2. Porquê este entre tantos? 
- a união entre voz e orquestra é absolutamente soberba. Há outras versões que tentam por caminhos diferentes. Mas nesta versão a esplêndida orquestra de Szell cria um mundo crepuscular, detalhado e preciso.
- Schwarzkopf estava aqui no fim da sua carreira. Isto significa que a sua voz estava a perder recursos, mas usa-a aqui com uma quente e delicada inteligência que pode tornar-se devastadoramente movente à 4a ou 5a audição.
- O texto: a pronunciação de Schwarzkopf e a sua interpretatação das palavras (mesmo para quem não fala Alemão) entrega um significado extra e amplo ao que estamos a ouvir.

Versões alternativas:
- Jessye Norman, Gewandhausorchester Leipzig, Kurt Masur (1988), Decca
Às vezes parece que o sábio Masur e a envozeirada Norman vão por caminhos diferentes (o início de "September", ele detalhadíssimo e quase experimental, ela a subir - quase como se fosse ela a orquestra, ele a voz); e apesar de uma voz sinfónica, Norman não tem a pronunciação e o detalhe que estas composições pedem.
- Gundula Janowitz, Berliner Philarmoniker, Herbert von Karajan (1974), DG
Custa-me muito colocar aqui esta referência. Mas na verdade a exuberância sinfónica de Karajan ajusta-se a alguma destas peças, e Janowitz é perfeita em pronunciação e tom. Mais: o CD é a melhor introdução possível a Strauss, com as "Metamorphosen", e/ ou o Concerto para Oboé (um mistério de leveza que nem parece possível existir), e a "Morte e Transfiguração".
- Lucia Popp, London Philarmonic Orchestra, Klaus Tennstedt (1982), EMI
Tennstedt é um pintor - e não há mais nada a dizer. Não se recupera bem depois de ouvir o que ele faz com a orquestra. E Popp tem o tom certo, o equilíbrio entre todas as versões.
NB: Noto que parte deste texto é uma adaptação da crítica que publiquei aqui.

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