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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2014

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, III

Eu estava perdido na cidade velha, era um facto. Nevava uma espécie de sol quadrado, o trânsito de pássaros de fogo era especialmente intenso, e eu tinha comido umas declinações alemãs que me tinham caído particularmente mal. Andava a trincar versos de Goethe, o que toda a gente sabe que faz bem ao equilíbrio do ecossistema, mas bastante mal aos pequenos cérebros do estômago: florescem longos e altos.
Pronto, mas era oficial: estava perdido. Abri o mapa, mas não consegui encontrar rigorosamente o nome da rua, o rio, a torre ao contrário que o mapa teimava em apontar como o centro da cidade. Resolvi por isso sentar-me entre os pingos de chuva num banco de um jardim. Um daqueles governados por corvos altos onde se deve pagar a entrada com um pesadelo de 2 kgs. Abri a mala. Já não tinha nenhum (isto de os andar a trocar por frases para o novo livro ainda vai dar cabo da minha vida sexual comigo, pensei). Claro que um corvo devidamente certificado se aproximou.
- Não pode entrar aqui sem …

Eleições Europeias ou a Escolha da Europa?

Há dias, numa aula, um aluno consultou o seu pequeno dicionário Alemão-Português e disse: "No Domingo é Escolha Europeia". Wahl, em Alemão, quer dizer eleição ou escolha. Mas acho que de facto ele tinha razão: deveria ser um dia de escolha, e não vai ser.
A União Europeia parece o Império Romano na sua decadência: ocupada pelos seus bárbaros, atacada pelos seus fantasmas. Mas porém a funcionar, na sua burocracia eficaz, atenta ao tamanho da fruta e bizantinismos afins, mas incapaz de se unir em recriar-se. A UE enfrenta o maior desafio da sua história. A crise do Euro só provou que as estruturas idealizadas (e construídas em consensos moles) durante os últimos anos não estão a funcionar. E o desafio é tremendo porque algumas das suas bases (livre circulação de pessoas, votações por unanimidade) estão a desaparecer. Quando se começa a fechar a porta a cidadãos da UE dentro do seu espaço, o espírito da UE está a morrer. Por outro lado, é necessário que se eleja um Presidente…

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, II

Não pensava que aquela porta se abria daquela maneira.  Eu pus apenas a mão direita em cima da maçaneta, achei que era apenas um golpe de mão, a entrada para outra divisão. Não pensava que era a divisão mesma num golpe de pulsos. Entrei e lá estava, sentada vogante na minha condição passada feita futuro agora: a minha morte velha. - Pensei que te tinha morto. Pôs o cigarro ao canto da boca, enquanto lavava o braço inteiro numa bacia cega, onde globos oculares superficiavam com pétalas mortas. - Nós não morremos, gajinho. Nós só somos substituídas. Fintas uma, vem logo outra. Funcionamos melhor que os pacotes de apoio da UE. Fiquei sem saber se deveria sentar-me, ficar de pé, ou colar-me à janela. Toda a vida a pensar como seria quando a morte me encontrasse, e agora era eu a encontrá-la. Décadas de etiqueta servem muito pouco quando somos embalados na loja das surpresas. - Senta-te aí que eu já te tiro isso. Olha, e serve-te. Rejeitei com um gesto provar os olhos, estranhamente azulad…

não quero um futuro retrocedido, I: as raparigas da Nigéria

Às vezes penso como a Humanidade retrocedeu. E como a tecnologia nos é vendida como circo para os romanos: distraiam-se com os gadgets, que todos podem ter, para não verem a realidade. Isto quando temos menos direitos como cidadãos ocidentais a cada dia que passa; isto quando o primado da igualdade e dos direitos humanos se perde a cada dia que passa. E retrocedeu mesmo, se colocarmos a Revolução Francesa como referente, esse terramoto civilizacional com todos os seus ideais a concretizarem-se, com o peso do sangue e da mudança a tornar as ideias reais. Perdemos direitos como cidadãos numa crise inventada na América com o beneplácito da China e muito acarinhada na City de Londres, que se destinou (também) a salvar os bancos alemães e franceses.  Porque temos uma moeda comum que devia significar o mesmo chão, o mesmo objectivo, o mesmo ideal. Uma moeda significa valor comum, não desvalor colonial. Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, Chipre, Itália: o Sul a ser colonizado pelo norte, em…

Quem é burro? A História ou os homens?

Europa, 1938: um partido nazi dos Sudetas, na então Checoslováquia, deseja a anexação pelo III Reich de Adolf Hitler. O território é anexado em Outubro de 1938, ignorando um referendo previsto pelo Acordo de Munique, organizado por várias potências ocidentais. Antes disto, a 13 de Março dá-se a "Anschluss", a anexação da Áustria pela Alemanha, seguida de um referendo com 99% dos votos a favor. "Espaço vital", "a Grande Alemanha", clamava então Hitler. Não, isto não lembra nada a repartição da Ucrânia; isto não lembra mesmo nada a "Nova Rússia" de Putin e os seus referendos e ocupações encenados.
Berlim, 13 de Agosto de 1961: numa madrugada, a então RDA (República Democrática Alemã, DDR em Alemão) constrói um muro que torna a parte ocidental de Berlim, então ocupada pela França, Inglaterra e Estados Unidos, numa ilha. O Presidente americano, J. F. Kennedy, decide fazer zero. Uma guerra com os russos por causa de Berlim?, diz-se que terá dito. Nã…

100 Sem Nunca: Vier Letzte Lieder

Começo hoje uma nova rubrica no blogue: "100 Sem Nunca". Quero dizer: 100 CDs sem os quais nunca seria capaz de viver.
Sublinho que não estou a falar de obras, mas de gravações em si. Tentarei ser curto e directo, e explicar como e porquê estes discos são essenciais para um correcto funcionamento do (meu) organismo. Aliás, creio mesmo que um dia se descobrirá como muito do equilíbrio do universo deles depende.
Richard Strauss: Vier Letze Lieder (Quatro Últimas Canções) Elisabeth Schwarzkopf, Radio-Symphony Orchestra Berlin, George Szell (1966) EMI Classics
1. Porque não passo sem
Não gosto de Ópera; tenho problemas em ouvir sopranadas.
Mas assim que caí nesta obra, há precisamente dez anos atrás, no fim de vida de uma pessoa que amei muito, fiquei a dever-lhe a compreensão do Inverno.


2. Porquê este entre tantos? 
- a união entre voz e orquestra é absolutamente soberba. Há outras versões que tentam por caminhos diferentes. Mas nesta versão a esplêndida orquestra de Szell …

qualquer coisa em forma de coisa nenhuma, I

Festival de Poesia do Mediterrâneo: a palavra desprisão

Começa assim um dos poemas de Clepsydra, de Camilo Pessanha (publ. post. 1920):
«Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das flores de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos.
Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aquário.
- Campo florido das Saudades,
Porque rebentas tumultuário?»

Não sei quantas portas atravessámos, quantas vezes o nosso nome dissémos, quantas identificações tivemos de mostrar e validar. Éramos de uma estranha condição. Portadores de algo que não pode estar preso - uma voz. E ao atravessarmos corredores e corredores, átrios e portas, demos num auditório, onde olhos pesados e descontemplados nos aguardavam. 
Íamos ler para os presos. Em todas as línguas do mar exterior que os circulava,  naquela ilha da ilha sem saída onde estavam. E mesmo em línguas que desconheciam, eu não vi nunca um público mais ávido, mais celebrante, mais livre.
Antes das ideias, antes das religiões, antes até de si mesmo, a metáfora salva. É um tran…