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Festival de Poesia do Mediterrâneo & as seen in poetry, IV


Não me canso de o dizer, porque o vivo permanentemente: a poesia acontece. E se nos vemos a nós como palavras, que os gestos e as decisões vão tornar sentido, mais claramente a poesia procura-nos para existir, para se cumprir na sua rota de significado, de tempo sobreposto, circular.

Palma, 3 de Abril de 2014. Saímos da leitura na prisão (haverá um post sobre isto em breve). Eu, emocionado pela glosa fortíssima e tronitruante do Xurí, lembrei-me de Natércia. Entrámos no autocarro que começara a deslocar-se em direcção ao centro da cidade. Numa placa de direcções, vejo escrito: "Valldemossa".
E nesse momento os versos do "Poema Ilegível" de Natércia ecoam:

"Por isso. Alugados me são
Por meu tempo e ilusão os céus
De Valdemosa."

Ela tinha estado ali, mergulhado daquele céu a música das suas estradas. Perguntei à Cathy: "Foi aqui onde viveram Chopin e George Sand?". Sim, resposta a que o poema já tinha respondido.
Mas o símbolo tinha de alargar-se: tocar-me de novo, como uma memória que se torna carne da carne, rasgar-se em arco, para que eu o atravessasse, e a sua vida e a minha se dilatassem - é isso o sentido.
Na última noite, após a "Noite da Poesia", cumprimento uma senhora que se sentava perto de nós. Alta e suave nos seus gestos precisos, uma espécie de música. Tinha sido bailarina - tal como Magdalena Espírito Santo, amiga de Natércia com quem julgo ter ela feito a viagem a Palma nos anos 1950.
- Sabes onde ela mora? - disse-me Cathy. - Em Valldemossa. Na casa de Chopin.

E o poema de Natércia continua: 

"Por isso. Alugados me são
Por meu tempo e ilusão os céus
De Valdemosa. O retrato
Do Anjo que viu Delacroix
A cabeça a tombar da vida para Lá (...)

Velha Língua! Que faz
A viagem voraz dos olhos,
De emoções por longos batalhões,
Desventrados, febris, loucos, incendiados
Que em tanta dor e amor foram gerados?!
Todos. Somos a velha raça dos malditos.
Não soubemos amar. Não sabemos falar.
Gagos. Surdos. E coxos. Idiotas
Com ambições honestas
Às vezes. Pelas frestas da prisão
Que vamos podres, vesgos,
Vemos passar um rio. (...). "

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