Avançar para o conteúdo principal

Europe by train, IV: cell-nutcase

À partida tudo prometia o melhor de todos os mundos: ela tinha um perfume de manhãs junto ao mar, depois de um passeio pelo pomar. A elegância do casaco bordeau comprido, no vestido que parecia esconder e prolongar as pernas altíssimas. E os gestos, quase precisos, quase esvoaçantes.
Como estava sentada ao meu lado, era impossível não ver a plêiade de coisas que espalhou pela mesa de trabalho que partilhávamos no comboio Kçln-Berlin. Uma pasta de documentos, que verificou muitas vezes, como se temesse a própria vida daqueles papéis - uma vida própria que a afastaria dela própria durante algum tempo, e muitas circunstâncias depois. Arrumou-os e voltou a tirá-los várias vezes. A senhora à minha frente já sorria, até porque nos cedeu o seu lugar ao lado, vago, mais para ter motivos para animação e conversa do que por simpatia natural. Quando acabou a saga papeleira, abriu o computador portátil, onde um fundo de écran com a violoncelista Guilhermina Suggia, no quadro pintado por Augustus John, me esclareceu a sua profissão. Parecia de propósito, como se eu fosse um leitor e o comboio o narrador, porque pareceu lembrar-se que vivia acoplada a um violoncelo, e foi aos lugares de bagagem na entrada da carruagem fazer qualquer coisa ao bicho. Talvez uma festa, como não fez aos papéis.
O mundo dela parecia fazer toda a lógica, até porque fazia uma tese sobre Musicoterapia.  Num Alemão curto, com frases de sete ou oito palavras, mais que provavelmente não língua materna (o pavor, o pavor puro das orações relativas em Alemão, e os seus casos Hídricos).
A coisa só começou a estilhaçar-se quando ela resolve fechar a tese e fazer algumas chamadas. Os sorrisinhos tontos ao telefone, os termos de tratamento completamente pirosos e infantis para cada uma das quatro pessoas para quem ligou, a ansiedade de ser amada em cada conversa e proposta. E pronto: para fechar a coisa, decide pôr-se a meditar no comboio, em posição de lótus e com as mãos desenformadas. Não era natural.
Os violoncelos são precisos, vinha eu a pensar enquanto ouvia a Du Pré. Precisam é de imprecisos que os toquem.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…