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Aulas de Matemática em Sânscrito - ou a Fuga

Hoje faço 37 anos. E não sei porque é que com a idade, festejar isto se torna cada vez menos agradável, cada vez mais uma ocasião fugante. 
Não fujo da idade. Não fujo do carinho das pessoas próximas que enviam os melhores desejos. Fuga é o único sentimento que atravesso quando passo pelo meu aniversário. Não é uma coisa que eu queira celebrar socialmente - mas apenas uma coisa que eu quero celebrar comigo mesmo. Celebrar os anos, para mim, é uma coisa tão desagradável como uma ida ao dentista, dormir com a sogra, aulas de Matemática em Sânscrito. É um orçamento rectificativo de mim próprio para o mundo, uma enxaqueca da alma.
A única coisa que me apetece é desligar todos os fios com todo o mundo conhecido, pegar na mochila, e desaparecer como um estrangeiro de mim próprio. Que ao final do dia, regressa à sua própria vida, como se regressasse à sua própria casa, e encontra de novo as portas para as coisas. Que, depois de fugir, encontra o elo com a sua própria natureza, o contrato consigo mesmo.
As melhores recordações que tenho do meu dia de anos foram sempre os momentos em que não celebrei. Um almoço de croquetes e beterraba num tupperware à mesa de cabeceira da minha avó moribunda; uma fuga de bicicleta a Potsdam, a almoçar no jardim do Schloss uma sandwich requentada entre turistas e corvos; uma manhã a cortar arbustos numa quinta, e a sentir os braços doerem de tão vivos e pesados.
Porque quero fazer do tempo que me cabe uma pergunta, sobre o significado de estar vivo, sobre o que significa ser criado: por Deus, pelo Universo, por mim mesmo. Esta última ideia persegue-me desde há anos. Eu sou, eu tenho de ser, permanentemente o meu criador.

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