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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2014

As seen in Poetry, IV: «and for all this, nature is never spent»

The Grandeur of God

The world is charged with the grandeur of God.
It will flame out like shining from shook foil;
It gathers to a greatness like the ooze of oil
crushed. Why do men then now not reck his rod?
Generations have trod, have trod, have trod
And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
And wears man’s smudge and bears man’s smell; the soil
Is bare now, nor can foot feel, being shod.

And for all this, nature is never spent;
There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black west went
Oh, morning, at the brown brink eastward, springs–
Because the Holy Ghost, over the bent
World broods with warm breast and with ah! bright wings.

Gerald Manley Hopkins

Jardins para o Fim dos Tempos: Bach, Cantata Nº8

Descobri as Cantatas de Bach há três anos. Quando, preso num Convento setecentista nos meus dias, prazos e pensamentos, bati contra a maravilhosa colecção que Sir John Eliot Gardiner vinha editando, às suas custas, como resultado da "Bach Pilgrinage" que fez no ano 2000 (pode ler-se aqui). E eu, que sou um amante tardio de Bach, porque por Bach comecei (só isto dava toda uma literatura), encontrei nestas peças o Bach mais inventivo, mais experimental, mais humano, mais inebriante. Os anos passaram, as Cantatas foram ficando, como marcas de grandes momentos. Mas há dias fui atingido por uma. Precisamente quando procurava a peça de música que faltava para perceber o nexo de um dia. Por nada, tinha decidido ouvir um dos CDs da colecção de Gardiner que referi, e que conhecia pior. E não só a peça que pode ser ouvida em anexo, mas a cantata inteira em si me atingiu como um raio. É a Cantata Nº8, "Liebster Gott, wenn werd ich sterben" ("Amado Deus, quando irei eu m…

Aulas de Matemática em Sânscrito - ou a Fuga

Hoje faço 37 anos. E não sei porque é que com a idade, festejar isto se torna cada vez menos agradável, cada vez mais uma ocasião fugante.  Não fujo da idade. Não fujo do carinho das pessoas próximas que enviam os melhores desejos. Fuga é o único sentimento que atravesso quando passo pelo meu aniversário. Não é uma coisa que eu queira celebrar socialmente - mas apenas uma coisa que eu quero celebrar comigo mesmo. Celebrar os anos, para mim, é uma coisa tão desagradável como uma ida ao dentista, dormir com a sogra, aulas de Matemática em Sânscrito. É um orçamento rectificativo de mim próprio para o mundo, uma enxaqueca da alma. A única coisa que me apetece é desligar todos os fios com todo o mundo conhecido, pegar na mochila, e desaparecer como um estrangeiro de mim próprio. Que ao final do dia, regressa à sua própria vida, como se regressasse à sua própria casa, e encontra de novo as portas para as coisas. Que, depois de fugir, encontra o elo com a sua própria natureza, o contrato con…

Europe by train, IV: cell-nutcase

À partida tudo prometia o melhor de todos os mundos: ela tinha um perfume de manhãs junto ao mar, depois de um passeio pelo pomar. A elegância do casaco bordeau comprido, no vestido que parecia esconder e prolongar as pernas altíssimas. E os gestos, quase precisos, quase esvoaçantes. Como estava sentada ao meu lado, era impossível não ver a plêiade de coisas que espalhou pela mesa de trabalho que partilhávamos no comboio Kçln-Berlin. Uma pasta de documentos, que verificou muitas vezes, como se temesse a própria vida daqueles papéis - uma vida própria que a afastaria dela própria durante algum tempo, e muitas circunstâncias depois. Arrumou-os e voltou a tirá-los várias vezes. A senhora à minha frente já sorria, até porque nos cedeu o seu lugar ao lado, vago, mais para ter motivos para animação e conversa do que por simpatia natural. Quando acabou a saga papeleira, abriu o computador portátil, onde um fundo de écran com a violoncelista Guilhermina Suggia, no quadro pintado por Augustus …

Festival de Poesia do Mediterrâneo & as seen in poetry, IV

Não me canso de o dizer, porque o vivo permanentemente: a poesia acontece. E se nos vemos a nós como palavras, que os gestos e as decisões vão tornar sentido, mais claramente a poesia procura-nos para existir, para se cumprir na sua rota de significado, de tempo sobreposto, circular.

Palma, 3 de Abril de 2014. Saímos da leitura na prisão (haverá um post sobre isto em breve). Eu, emocionado pela glosa fortíssima e tronitruante do Xurí, lembrei-me de Natércia. Entrámos no autocarro que começara a deslocar-se em direcção ao centro da cidade. Numa placa de direcções, vejo escrito: "Valldemossa".
E nesse momento os versos do "Poema Ilegível" de Natércia ecoam:

"Por isso. Alugados me são
Por meu tempo e ilusão os céus
De Valdemosa."

Ela tinha estado ali, mergulhado daquele céu a música das suas estradas. Perguntei à Cathy: "Foi aqui onde viveram Chopin e George Sand?". Sim, resposta a que o poema já tinha respondido.
Mas o símbolo tinha de alargar-se:…

Festival de Poesia do Mediterrâneo: e as montanhas cantam

As montanhas cantaram as suas raizes de neve e de viagem. Nas suas melodias, mas ecoando vozes bem mais longas, de pastores antigos a barcos árabes dando à costa - a certeza de que uma ilha é um planeta rodeado de estrelas por todos os lados. Assim cada vez que o "glosador" Mateu Matas, Xurí, interveio no festival.  Éramos treze poetas: do Canadá a Marrocos, da Catalunha à Turquia. Os poemas, onde em todos se ouvia a herança modernista, o trabalho ainda activo e ainda pergunta do processo modernista, pareciam antigos. A voz de Mateu, antiga de séculos, em plena improvisação, era a mais modernista de todas: porque o primevo, o essencial sonoro, a relação nova com a imaginação e os sons naturais, estava lá. E eu que vinha de Berlim, de ouvir quase semanalmente grandes poetas mundiais que combatem e refazem os limites da linguagem, senti que o futuro da poesia, e da linguagem, está no futuro do passado. Tão longemente perto para ser encontrado. E em cada das várias leituras do …

Crónicas de Berlinzâncio: Concerto para Pássaros e Orquestra

Se há coisa que não perco em Berlim são as "Öffenliche Probe" (os ensaios abertos, livres) do Konzerthaus. O maestro, Ivan Fischer, está na verdade a dirigir o público, mais do que a ensaiar a orquestra. São sempre criativos, desafiantes, revigorantes. Aí os meus ouvidos pensam, encontram a sua natureza de água, a sua liquidez cantante. Hoje foi o ensaio para o "Concerto Surpresa". Ninguém sabia o programa. Uma árvore esperava-nos no meio do palco. O Maestro Fischer entrou, máquina fotográfica ao pescoço como o melhor turista texano.  - Vamos ouvir, neste concerto surpresa, o Concerto para Pássaros e Orquestra de Rautavaara. Palmas para os solistas. E uma gaiola de pássaros foi voada até ao palco. Fischer explicou depois que contactou o compositor, com a dúvida de se os pássaros que tinha disponíveis em Berlim seriam semelhantes aos Finlandeses.  A orquestra começou, e os pássaros responderam. E mesmo na pausa entre andamentos, continuavam o seu sopro de água e rai…

Festival de Poesia do Mediterrâneo: e a poesia expande as raizes

Estou a participar no XVI Festival de Poesia do Mediterrâneo, em Palma de Maiorca. O encontro reúne 14 poetas das línguas mediterrânicas, da Turquia a Marrocos. A pluralidade é a regra, como o "mare nostrum" ensina: está representada a língua francesa, mas com uma poeta do Québec, Louise Warren; ou a língua castelhana, com uma poeta mexicana, Blanca Luz Pulido. E assim o "mare nostrum" se torna oceano.  Mas terra, também: tem sido miraculosamente arrepiante a intervenção do glosador Mateu Matas, que improvisa em canto tradicional das ilhas. Falarei sobre ele em outro post; mas a diversidade está sublinhada nas línguas, nas referências, nas raizes, tornando sólidas as correntes líquidas que nos constroem. A ilha parece um mundo, tão ampla nas vias que se estendem a partir das vozes. Eu nunca soube - ou talvez me tivesse esquecido na pequenez de um país, dos países - como a poesia poderia alargar a terra dos olhos.