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Europe by train, III: auto-ajude-me



[auto-ajude-me]
A barreira dos cinquenta foi recentemente transposta, sem berreiro. Ela teria gostado de algum barulho, de uma festa surpresa, de uma manifestação pelo menos última dos seus próximos. Alguma coisa para a qual passear o pensamento nos dias iguais e tristes. O lenço verde-água com desenhos azuis está demasiado prendente ao pescoço, decoração que passou a ser conforto. Novos são os óculos de leitura, na ponta do nariz, que a fazem – ela sabe – reforçadamente mais velha. O rosto é quase nada expressivo mas ainda bastante bonito, na pele 40% leitosa, 40% porcelonosa, 20% base. E se este denuncia o estado pre-mortem da sua existência, as suas leituras assinam-no por baixo. Livros de auto-ajuda em Alemão, com títulos vagamente índios, vagamente flauta de pã, vagamente new-age entre Buenos Aires e Atacama com trips em Cordilheiras de chá  mate e reencarnações de feiticeiros sexuais. Não bastante, uma revista de cozinha que se chama, e traduzo, “As Suas Novas Receitas Preferidas – para si e para toda a família” e que ela folheia já no fim da viagem, sabendo que voltará para o costume do costume, e que a única variedade e atenção que poderá ter é no apreço de três segundos que lhe darão pela nova variedade de schnitzel que cozinhará no almoço de Domingo.

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