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100 anos depois, agora

Tenho andado a ler vários livros sobre o início da 1º Grande Guerra. Porque me interessam os inícios em tudo; porque os inícios mantém-se sempre. Há tanta capacidade produtiva num início que nunca se cumpre completamente; muitas das suas tensões prolongam-se, reiniciam-se, como uma bomba de explosão lenta. 
E foi assim o início da Primeira guerra. Muitos inícios, que demoraram décadas a explodir. O assassinato do Arquiduque em Sarajevo fez começar a guerra a Ocidente, com a Alemanha a invadir a Bélgica. As tensões a Ocidente resolveram-se não apenas na Primeira Guerra, mas muito depois - se ainda estão integralmente resolvidas.
Hoje, ao descer a minha rua em Berlim, reparo numa família que enche a station wagon com malas e malas. Falavam russo. Uma conhecida tem um problema com um cliente da mesma nacionalidade que quer fechar um negócio urgentemente na próxima semana. Os sinais de que as barreiras se vão fechar começam. E o conflito desencadeia-se longe daquele que será o seu centro: começa na Crimeia, alastra e alastrará nas próximas semanas à Ucrânia. Já há tropas especiais do Kremlin a invadir serenamente a Ucrânia oriental (ler aqui). E tal e qual como antes da II Guerra, também o agressor fez os seus jogos olímpicos: Sochi em 2014, os de 1936 em Berlim e Garmisch-Partenkischen.
Não é complicado perceber o que se vai passar: o Ocidente não vai intervir militarmente. Não quer começar uma guerra com a Rússia que facilmente se tornará mundial e nuclear. Vai abandonar suavemente os Ucranianos à sua sorte, atando a Ucrânia Ocidental a Ocidente e deixando a Crimeia e a Ucrânia Oriental à mercê dos Russos - não foi assim com a Alemanha do pós-II Guerra?
Putin fechará as torneiras do gás, e o ocidente tem seis-sete meses até ao Inverno para criar alternativas (será, literalmente, a II Guerra Fria). A economia sustentada nos estranhos negócios russos vai cair; e todos os oligarcas com os seus tentáculos que compram Berlim, Viena, Paris, Londres e Nova Iorque vão suavemente fazer com que os preços das casas voltem a descer, terminando a 3a fase da bolha imobiliária que desencadeou a crise de 2008. E que fará a Europa cair na realidade. Quem lida com Astrologia sabe bem que os trânsitos destrutivos dos planetas batem sempre três vezes.
E depois? Nada de guerras. Ninguém está interessado nisso, talvez apenas Putin, que tem tudo a ganhar, reforçado na sua loucura e seguro de que nenhuma invasão da Rússia funcionou na História (bom, os Mongóis...).
Mas o que a União Europeia tem à sua frente é bem mais desafiante.E tem de passar por cinco vectores:
1. Congelar todas e quaisquer contas russas no Ocidente, não só de elementos do regime, mas de qualquer actividade que ligue esse país à União Europeia. Já o devíamos ter feito há muito, com um país que agrediu a Geórgia antes, e que sistematicamente viola os direitos de minorias.
2. Integrar rapidamente a Ucrânia Ocidental e outros países próximos da Rússia em parcerias especiais com a União, e com empréstimos directos, e ajuda técnica urgente.
3. Definir uma política interna à União clara e verdadeiramente unitária em termos económicos e bancários.
4. Constituir uma força de resposta rápida que insista na salvaguarda das fronteiras da União.
5. Desenhar uma carta de princípios clara - como a Declaração dos Direitos Humanos - que recrie as suas bases e a sua forma de actuação. É o momento para a Europa voltar aos seus princípios norteantes.

Será difícil, claro, fugir a um confronto directo. Putin irá provocá-lo, como já o está a fazer. Não responder militarmente será corajoso, em parte; e só totalmente se significar o corte total com um regime errado com o qual a Europa flirtou em troca de gás e dinheiro fácil, deixando criar o monstro que agora nos morde as fronteiras e os princípios.
Mas isto é apenas o início. E os inícios são lentamente explosivos.

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