Avançar para o conteúdo principal

Três evidências presidenciais (ou talvez só três miopias)

É espantoso como cada país tem o hábito cansativo, inútil e esvaziante de andar a discutir os possíveis pró-candidatos presidenciais antes, muito antes, de cada eleição. Poucas coisas são mais improdutivas. Se se discutisse que perfil de país cada candidato pretenderia criar (e traria consigo com a sua candidatura), excelente; se ao invés se discutisse o próprio papel do Presidente da República, cujos poderes fácticos são muito maiores do que reais. Precisamente por isso, quando nas mãos de incompetentes profissionais, de burros institucionais, de débeis simbólicos, o cargo esvazia-se, perde a sua potencialidade. E a saúde simbólica (e identitária, quando coincidem) de um país é por demais afectada. A Presidência é um cargo que implica uma dose dupla de estabilidade e invenção, não pode alimentar-se de uma relativa estaticidade (em sentido duplo) como uma monarquia. E mesmo estas tiveram e têm de se reactualizar precisamente devido ao impacto de boas influências presidenciais.
A crise levou também a que se pensasse em boa governança, e os Europeus estão mais interessados numa União que funcione do que em eleger os seus primeiros-ministros; mais preocupados com uma União que seja representativa e que encontre soluções sólidas e de futuro do que no vendedor de enciclopédias bem-falante que ocupe o lugar de primeiro-ministro. E essa é também, entre outras, a razão da hecatombe que as eleições europeias vão ser.

Porém, em Portugal, em França e nos Estados Unidos os verdadeiros candidatos ainda não saíram do silêncio. E esses três candidatos, se avançarem, poderão de facto fazer muito mais pela mudança efectiva da ideia de Presidência do que aparentemente poderá parecer. Cá vão as razões e as respectivas explicações.

1. Portugal
Se Marcelo não avançar, a candidata do centro-direita será Manuela Ferreira Leite. Com a bênção de poder reunir PP e PSD, dar uma aura de austeridade, fazer Cavaco feliz e deixar Rui Rio felicíssimo quando tiverem de se reunir ambos às 5as feiras para discutir economiquês.
Mais interessante será ver o duelo eleitoral, que provavelmente será contra Guterres, ou ironia do destino, contra Sócrates.
Manuela não começará por ser uma estrela nas sondagens, mas fará um passeio tranquilo até à vitória. Ninguém está interessado nesta eleição, e depois da forma como o cargo foi esvaziado e arruinado pelos últimos incumbentes, uma mulher mais velha, com ar de "mater familias" será eficaz no cargo. Não terá muito que inventar, mais que estabilizar. E pela forma como os pensionistas e reformados foram atacados por este governo, eleger alguém desta faixa é essencial para o país se curar de si mesmo (e poucos atacaram esta política de roubo aos pensionistas como Manuela Ferreira Leite).

2. França
Sarkozy ou não, Valls ou não, a verdadeira candidata ao Eliseu, com capacidade de coligar a direita e ir buscar votos à esquerda é a Directora do FMI, Christine Lagarde. A figura pode ter aspectos angulosos, mas a independência com que se tem desvinculado de velhas políticas oficiais do FMI pode revelar um processo pessoal interessante. Seria também aquela que conseguiria optimizar os estilhaços da errática política social-democrata de Hollande. [Os meus gostos seriam o de um verdadeiro presidente de esquerda em França, mas isso parece mais impossível de achar que um comunista na China.]
Se deixarem Sarkozy dar tiros nos pés, e o seu partido fanicar-se com a rapidez e a mestria com que tem feito ultimamente, a senhora terá de aparecer como solução de consenso. Que alguém alivie por favor o senhor Hollande das suas funções - e o mais depressa possível. Hollande não percebeu que a gravitas institucional foi afectada, e logo num país que vive a sua realidade quotidiana numa esfera simbólica essencializante devido ao triunvirato Charlemagne - Louis XIV - Napóleon.

 3. Estados Unidos
Toda a gente põe passadeiras vermelhas para Hillary. Mas a sua acção como Secretária de Estado deixou muito a desejar. Seria preciso alguém com um curriculum mais activo e institucional, e capacidade de fazer muitas mudanças em quatro anos. Será uma luta por um mandato, apenas, para o próximo incumbente Democrata (o tempo que o Partido Republicano precisará para acabar com a festa do Chá depois das eleições). E a pessoa certa para isso é John Kerry. Já na lista de feitos, com um ano no cargo: o complicado dossier do Irão; os ecos da NSA na Europa. É considerado "demasiado francês", situação perfeita para se ancorar à Europa e para encontrar soluções diplomáticas para muita disparateira Obâmica.
 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…